imprensa que respeita o povo de santo é conquista recente

imprensa que respeita o povo de santo é conquista recente

Em 2006 A TARDE publicou o caderno “Sou de santo e raça”, um dos exemplares da coleção formada por 13 especiais que abordaram temas variados sobre a cultura afro-brasileira no projeto iniciado pelo jornal em 2003. A publicação debateu as várias formas de preconceito que ainda atingiam, no século XXI, religiões como o candomblé. Esse é um dos exemplos de como a imprensa baiana mudou para melhor no tratamento de temas relacionados ao povo de santo, abandonando narrativas como as das reportagens veiculadas, em 1951, na revista francesa Paris Match e na brasileira O Cruzeiro. A primeira, A TARDE publicou, traduzida, nas edições de 10,11 e 12 de julho daquele ano.

Com o título “Les Possédées de Bahia” (As possuídas da Bahia), a Paris Match, em sua edição de 21 de maio de 1951, anunciou a publicação do livro Le Cheval des Dieux (O Cavalo dos Deuses) e divulgação exclusiva das fotografias em um jornal francês. O material foi produzido pelo cineasta Henri-Georges Clouzot (1907-1977) a partir da sua admissão em um rito de iniciação de novas sacerdotisas no candomblé.

O texto foi construído com base no depoimento de Clouzot, diretor de filmes como O Salário do Medo (1953) e As Diabólicas ( 1955). Ele é considerado por críticos como um mestre do suspense com uma trajetória recheada de polêmicas. A reportagem se refere tanto ao candomblé como à Bahia de forma depreciativa. Ao se referir ao transe das sacerdotisas, o autor do texto usa expressões como “feras grunhindo” e “possuídas pelo demônio”.

Reação

Na edição de 17 de julho de 1951, o sociólogo Roger Bastide classificou a reportagem da Paris Match como sensacionalista, além de afirmar que o trabalho de Clouzot não tinha método científico. Bastide, segundo o texto, havia chegado a Salvador no dia anterior. Ele já vivia no Brasil há três anos e ensinava na Faculdade de Filosofia de São Paulo. Bastide também criticou o trecho da reportagem em que Clouzot é apresentado como o primeiro branco a acessar uma camarinha, nome do espaço reservado para a iniciação religiosa: “Isso não é verdadeiro. Antes dele outros brancos já entraram em tais recintos. Basta dizer que nem todos os fetichistas são negros: há gente branca entre eles, inclusive uma filha de espanhola” (A TARDE 17/7/1951).

Bastide já era familiarizado com o universo dos terreiros. Em 1958, publicou O candomblé da Bahia – rito nagô, um estudo já considerado clássico. Em 18 de julho foi a vez de Estácio de Lima (1897-1984) criticar o texto da Paris Match. Bacharel em Direito, mas com pós-graduação em ciências médicas, ocupou, na Faculdade de Medicina da Bahia, a cátedra de Medicina Legal que havia sido fundada por Nina Rodrigues (1862-1906), de quem era um entusiasmado admirador. Mesmo criticando a reportagem da Paris Match, Estácio de Lima definiu o candomblé como uma vitrine de exotismo e patologias psiquiátricas, ou seja, um discurso próximo ao exposto na revista francesa.

“Nenhum médico, hoje em dia, deixa os bancos acadêmicos na ignorância desse magno capítulo da Patologia Social. Conhecem eles as estatísticas do Instituto Nina Rodrigues, levantadas por nós e pelo prof. Lima de Oliveira. Diagnosticamos, nos terreiros mais famosos, 23% de personalidades psicopáticas (inseguros, fanáticos, ostentativos, os histéricos, abúlicos etc); 15% de portadores de defeito esquizofrênico; 18 a 20% de simulações; dois casos de parafrenia; três de agitação maníaca; e uma quota apreciável de reações normais da personalidade, entre sinceros e atrazados pedagógicos” (A TARDE, 18/7/1951, p.2).

No dia seguinte, A TARDE publicou uma nota da Federação Baiana do Culto Afro-Brasileiro (Febacab), assinada pelo presidente Jorge Manuel da Rocha, com críticas à reportagem da Paris Match. No texto da associação, a reportagem da revista é caracterizada como caluniadora e insultuosa: “ Ante as levianas e falsas afirmativas de Clouzot, a Federação adota a sentença do venerando padre António Vieira: “Nada nos afronta, quem diz mal de nós mentindo” (A TARDE, 19/7/1951, p.2)

Nova batalha

Mas eis que outra reportagem, dessa vez de O Cruzeiro, uma revista brasileira, reacendeu a polêmica. Intitulada “As noivas dos deuses sanguinários”, publicada em 15 de setembro de 1951, o texto assinado por Arlindo Silva com fotografias feitas por José Medeiros apresentou detalhadamente o processo iniciático em um terreiro localizado no bairro de Plataforma e liderado por Risolina Eleonita da Silva, mais conhecida como Mãe Riso.

A polêmica dessa vez não foi registrada por A TARDE, ao menos no período de até um mês depois da publicação. Mas no ambiente dos terreiros a história ferveu, inclusive com a persistência por décadas da narrativa de que houve uma punição no campo místico: Mãe Riso teria sucumbido de forma misteriosa; outra dava conta que o terreiro foi depredado. Já em outras narrativas, as iaôs expostas nas imagens morreram jovens ou enlouqueceram.

Doutor em antropologia e professor da Universidade de Campinas (Unicamp), Fernando de Tacca apresenta o desfecho dessa história no livro Imagens do Sagrado- Entre a Paris Match e O Cruzeiro, publicado em 2009. A publicação traz informações inéditas sobre o caso: Mãe Riso morreu, por causas naturais, em 1993. Das iaôs que aparecem nas imagens uma se tornou mãe-de-santo. Além disso, ele encontrou uma carta em que Leão Gondim, chefe de redação de O Cruzeiro, desafia José Medeiros a não ficar atrás de Clouzot e Pierre Verger (1902-1996).

Referência na fotografia etnográfica sobre as religiões africanas e o candomblé brasileiro, Verger chegou à Bahia na década de 1940. Leão Gondim tentou obter fotografias de uma iniciação no candomblé que Verger havia produzido, mas não foram publicadas na revista A Cigarra acompanhando um texto de Odorico Tavares. Tacca encontrou essas imagens no acervo da Fundação Pierre Verger, localizada em Salvador. Na carta enviada a José Medeiros, Gondim faz o alerta de que Verger e Odorico Tavares não deveriam ser informados sobre o tema da reportagem que eles estavam produzindo ou iriam tomar providências para inviabilizar tudo. Odorico Tavares dirigiu a representação dos Diários Associados na Bahia. O Cruzeiro era uma publicação dessa cadeia de mídias fundada por Assis Chateaubriand (1892-1968).

Os repórteres de O Cruzeiro conseguiram contatos que os levaram a Mãe Riso. Esta não fazia parte da rede de relações que tinha maior proximidade com acadêmicos, como Verger, Odorico Tavares e José Bastide, ou seja, os críticos ao que já havia sido feito pela Paris Match. Vale destacar também a articulação no caso anterior da Febacab, o que deve ter reforçado todos os cuidados adotados pela dupla de O Cruzeiro.

Anos depois, José Medeiros publicou as mesmas imagens em um livro denominado Candomblé, e a polêmica não ocorreu como na publicação da reportagem. Essa é uma amostra de como a troca de plataformas – de revista para livro- fez o conteúdo das imagens mudar do status de “sensacionalismo” para “etnografia”.

Pai Rufino, na então nova sede de A TARDE | Foto: Arquivo A TARDE | 1.06.1979
Pai Rufino, na então nova sede de A TARDE | Foto: Arquivo A TARDE | 1.06.1979

Mudança

Essa tensão entre imprensa e comunidades afro-religiosas foi se dissipando ao longo do tempo. Na dissertação O Discurso da Luz-Imagens das religiões afro-brasileiras no Arquivo do Jornal A TARDE, orientada pelo professor Claudio Luiz Pereira, identifiquei 1.432 imagens sobre candomblé, jarê e culto de eguguns no acervo do hoje denominado Centro de Documentação A TARDE (Cedoc A TARDE). Deste material, 50 imagens foram analisadas.

O acervo tem registros da intimidade de vários dos terreiros da capital baiana – festas, ritos, inclusive os considerados tabus para divulgação em massa, como abate de animais. As imagens têm elementos que mostram a anuência das lideranças para o que foi registrado. Há fotografias raras, como a cerimônia para Tempo, realizada no Terreiro São Jorge Filho da Goméia. No texto, o autor também das fotografias, Reynivaldo Brito, afirma que em determinado momento teve que suspender a captura das imagens por determinação de Altamira da Conceição Souza, conhecida como Mãe Mirinha de Portão, a liderança religiosa da casa.

Na coleção também localizei uma imagem de Pai Manoel Rufino de Souza. O registro foi feito em 1975, já então na nova sede de A TARDE, onde ele foi para desmentir uma reportagem da revista Placar que lhe atribuía previsões sobre a final do campeonato baiano.

O texto relacionado cita que Pai Rufino estava muito nervoso e preocupado com a reação, especialmente da Febacab.

Analiso que Pai Rufino temia mais um confronto com a federação. Em seu livro, Fernando de Tacca relata que Odorico Tavares escreveu um texto crítico para O Cruzeiro, onde Rufino era apontado como o sacerdote Nestor que permitiu os registros de Clouzot. O texto não foi publicado, mas afirmava que ele seria punido. Em 1975, o líder do Ilê Tomin Bokum possivelmente já estava reconciliado com a Febacab. Tanto que, no ano seguinte, foi no terreiro liderado por Pai Rufino que ocorreu uma das celebrações pelo decreto que pôs fim à necessidade de que os terreiros retirassem, na Delegacia de Jogos e Costumes, autorização para fazer suas festas.

Na dissertação também observei que ocorreu um deslocamento, nas páginas do jornal, das reportagens sobre as religiões afro-brasileiras. Se antes elas eram publicadas no espaço de conteúdo sobre turismo, por exemplo, passaram, a partir de meados da década de 1980, para o espaço de notícias sobre a cidade. A imprensa parece ter sido educada pelas comunidades religiosas, pois se tornou uma aliada especialmente para as denúncias contra intolerância religiosa. Foi essa aprendizagem continuada que tornou possível especiais como o “Sou de Santo e Raça”. A publicação foi finalista, na categoria “região Nordeste” do Prêmio Imprensa Embratel em 2007.

A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período. Fontes: edições de A TARDE; Cedoc A TARDE; Imagens do Sagrado-Entre Paris Match e O Cruzeiro, (Fernando de Tacca, Editora Unicamp, 2009); O discurso da luz-Imagens das religiões afro-brasileiras no Arquivo do Jornal A TARDE (Cleidiana Ramos – Dissertação de mestrado, repositório da Ufba).

*Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em antropologia




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