Assistência adequada é principal barreira para pessoas trans

Assistência adequada é principal barreira para pessoas trans

Discutir o risco de câncer de mama entre pessoas transgêneras [pessoas que nasceram com determinado sexo biológico, mas não se identificam com o seu corpo] ainda é uma realidade muito distante quando falamos sobre o Outubro Rosa – campanha popularmente difundida para o alerta e combate à doença em mulheres cisgêneras [mulheres que se identificam com o sexo biológico com o qual nasceram].

Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), as mulheres cis são realmente as mais afetadas pela doença, representado, por ano, mais de 65 mil novos casos. No entanto, é preciso lembrar que o câncer de mama também atinge pessoas trans e homens cis, estes últimos, em menor incidência, cerca de 1% dos casos. Uma pesquisa realizada por um Centro Universitário de Amsterdã, na Holanda, revelou que mulheres trans têm 47 vezes mais chances de desenvolver câncer de mama do que homens cis.

“O risco de câncer de mama em pessoas transgêneras existe e não deve ser desprezado. As mulheres trans utilizam terapias hormonais estrogênicas por longos períodos para desenvolver a glândula mamária e, por isso, têm maior risco de câncer de mama, em relação aos homens cis, como mostrou estudo observacional em Amsterdã, publicado no British Medical Journal em 2019. Apesar deste aumento, podemos dizer que este risco ainda é pequeno pois o risco nos homens cis é de apenas 1%. Em relação aos homens trans que fazem mastectomia bilateral o risco reduz mais de 90%, porém não é zero, pois ainda existe tecido mamário residual após a cirurgia”, explicou a oncologista Maíra Tavares.

A estudante de direito Yuna Vitória, 27 anos, é mulher trans e diz que se sente privilegiada quando o assunto é câncer de mama, pois, apesar da ausência de pautas que discutam o tema entre pessoas transgêneras, nas redes pública e privada de saúde foi bem orientada quando iniciou o processo de transição de gênero.

“Felizmente fui bem orientada por minha médica endocrinologista no ambulatório transexualizador, que, desde o início do tratamento, me alertou sobre os riscos do câncer na medida do desenvolvimento de minha mama com uso de estrógenos. Fizemos meu histórico familiar, observando sempre as mulheres de minha família e suas predisposições. Regularmente faço USG [ultrassonografia geral] das mamas e, mais recentemente, mamografia, mas tudo isso via particular. Quem depende exclusivamente do SUS, ainda encontra dificuldade. Os programas de prevenção do câncer nunca incluem mulheres trans e travestis em suas agendas, de modo que muitas meninas são impedidas de realizar os exames nesses mutirões de atendimento preventivo”, lamentou Yuna.

Ausência de políticas públicas específicas 

Theo Brandon, 24 anos, é homem trans e marido de Yuna. Diferente da companheira, ele não encontrou tanta facilidade ao buscar atendimento médico e orientação. Theo não é uma exceção, muitas pessoas transgêneras ainda não são acolhidas nas redes de saúde como deveriam. “Infelizmente, com o advento de pautar a diversidade nos atendimentos médicos, tornou-se muito comum também setorizar as pautas da saúde da população trans em projetos de processos transexualizadores (estritamente às mudanças corporais), quando, na verdade, é importantíssimo que a saúde da população trans também seja encarada de forma multidisciplinar e multisetorial, afinal, também possuímos demandas de saúde da atenção básica, como qualquer outra pessoa”, diz. Theo continua. “A prevenção ao câncer de mama é um exemplo disso. Tudo começa na falta de parâmetros clínicos: na faculdade de medicina os dados que temos, que aprendemos e que os sistemas do SUS colhem, dizem respeito às realidades cisgêneras, salvo em casos de estudos sobre IST’s [Infecções Sexualmente Transmissíveis], as identidades de gênero nem são informações requisitadas nos questionários, o que dificulta mapeamentos epidemiológicos que, por conseguinte, gerariam políticas públicas. E, nesse ciclo, a pessoa trans que adentra o SUS sofre com a ignorância biomédica”, desabafou Theo, que é estudante de medicina.

Campanha restrita compromete saúde

Assim como o casal, o doutor em saúde coletiva e especialista em gênero e sexualidade Ailton Santos acredita que as barreiras impostas nas redes de saúde, seja ela pública ou privada, ocasionam enormes danos à saúde dessa parcela da população.  Para ele, no contexto do Outubro Rosa, os homens cis também terminam sendo prejudicados.  

“No campo da saúde convencionou-se o uso de cores para dar ênfase às campanhas de prevenção de agravos e cuidados. Assim sendo, o mês de outubro é celebrado como o Outubro Rosa voltado à prevenção do câncer de mama. Porém as campanhas nacionais e locais de prevenção do câncer de mama é voltada exclusivamente às mulheres cis (mulheres que nasceram com vagina). Isso é um grande erro por reduzir o alcance da campanha ao excluir outros sujeitos que têm mama”, lembrou ele. 

Ailton, que também é coordenador do ambulatório trans do Centro Estadual Especializado em Diagnostico, Assistência e Pesquisa (Cedap), defende uma campanha que incluía todos os públicos. 




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