janelas abertas para as histórias da Bahia

janelas abertas para as histórias da Bahia

O mais antigo jornal em circulação diária ininterrupta na Bahia e um dos 19 no Brasil a ultrapassar a marca dos 100 anos estreia, a partir de hoje, a seção A TARDE Memória. Vitrine do acervo do Centro de Documentação (Cedoc) do jornal, o espaço assinado pela mestre e doutora em antropologia e jornalista Cleidiana Ramos foi criado para apresentar ao leitor valiosas revelações acerca do cotidiano da Bahia desde o século passado. Nesta edição, conheça o Cedoc, espaço que funciona como guardião da memória local, descubra o papel dele na formação da pesquisadora que escreve a seção e a riqueza do acervo guardado a sete chaves nas prateleiras do setor. E, uma coisa é certa, a existência do lugar cada vez mais reforça a ideia de que a preservação deste tesouro raro contribui para  manter viva a história da Bahia.

Eu tive o privilégio de começar a trabalhar como repórter de A TARDE, em 1998, quando ainda tínhamos como parte da metodologia da pré -apuração de uma pauta consultar o ainda chamado “Arquivo”. Nessa época ele ficava em uma das “ilhas” no meio da redação com as janelas em vidro, o que possibilitava que nos vissem de lá como também tivéssemos a visão das estantes onde estavam as pastas com os documentos que alimentavam as nossas pesquisas. E muito do que escrevíamos, principalmente as reportagens especiais, logo passavam a encorpar o acervo.

“O jornalismo é janela que contempla a memória, mas também a reforça e alimenta”

Cleidiana Ramos, jornalista


São poucas as vezes, na dinâmica do fazer jornalismo, que pensamos nele dessa forma: uma janela que contempla a memória, mas também a reforça e alimenta. Em 2006 o Arquivo começou a passar por mudanças, inclusive de endereço: foi ocupar uma nova sala, no térreo – antes estava no primeiro andar da sede do jornal. O novo espaço tem estantes deslizantes, o que  o qualifica para as mais de 100 mil pastas de documentos.  Também há novos  equipamentos, especialmente os computadores para os arquivos digitais das edições do jornal desde 1912. Além disso, ele passou a se chamar Cedoc (Centro de Documentação).  

Eu ainda tive mais do que considero privilégios. Duas oportunidades de mergulhar em pesquisa nas coleções do Cedoc. Apurar, perguntar e obter respostas fazem parte da atividade de repórter e foi assim que acabei me entendendo muito bem com estas coleções numa trajetória que resultou em um mestrado e doutorado.

A primeira aventura pela coleção de fotografias, recortes de reportagens de A TARDE e de outros jornais e também de negativos basearam a minha dissertação intitulada “O Discurso da Luz – Imagens das religiões afro-brasileiras no Arquivo do Jornal A TARDE”, orientada pelo professor Claudio Luiz Pereira no Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Universidade Federal da Bahia (Pós-Afro/Ufba).

Edições digitalizadas de A TARDE estão disponíveis || Ag. A TARDE
Edições digitalizadas de A TARDE estão disponíveis | Foto: Felipe Iruatã | Ag. A TARDE

Para esse trabalho cataloguei 1.432 imagens sobre o candomblé, a umbanda e outras variações dos cultos que têm matrizes herdadas de civilizações africanas. Analisei 50 dessas fotografias com informações extremamente valiosas, especialmente para essas comunidades religiosas, como o rito de purificação de ferramentas da Superintendência de Parques e Jardins da Prefeitura de Salvador (SPJ), em 1985.

Podar uma árvore sagrada era uma demanda da comunidade da Casa Branca do Engenho Velho da Federação. Localizado na Avenida Vasco da Gama, a Casa Branca, de nome sagrado Iyá Nassô Oká, é  considerado o mais antigo terreiro de tradição ketu do Brasil e o primeiro terreiro de candomblé reconhecido como patrimônio brasileiro pelo Iphan em 1984.

Na imagem, Juliana Silva Baraúna, Mãe Teté de Iansã, que, na época era iaquequerê do terreiro (o segundo posto na hierarquia logo depois da Ialorixá) é auxiliada no rito por Margarida Nayr da Anunciação (Mãe Ajikutu de Ogum), na purificação das ferramentas. A imagem chama a atenção por destacar o respeito do candomblé com o meio ambiente (mesmo uma situação de poda para proteger as pessoas e o espaço requer respeito e purificação do metal que vai tocar uma árvore sagrada). É também importante notar como o poder público decidiu atender uma demanda dentro das suas atribuições, mas respeitou as regras de uma instituição religiosa que foi tão marginalizada e perseguida, inclusive pelo próprio Estado brasileiro em suas várias instâncias, especialmente a policial.

A história por trás da foto: rito de purificação de ferramentas para podar árvore sagrada || 15.05.1985
A história por trás da foto: rito de purificação de ferramentas para podar árvore sagrada || 15.05.1985

Em 2013 comecei minha segunda pesquisa no acervo. Dessa vez foi  para desenvolver o projeto da tese de doutorado. Intitulada Festa de Verão em Salvador – um estudo antropológico a partir do acervo do jornal A TARDE|,  o trabalho contou uma trajetória de 104 anos dos eventos que fazem Salvador reivindicar uma identidade festiva. Fotos e reportagens catalogadas e analisadas – algumas reunidas em um site disponível nesse endereço – http://espelhodefesta.atarde.com.br/-  contaram tensões, conflitos e  apresentaram raridades – como registros da Festa de São Nicodemus, padroeiro dos trabalhadores do porto,  ainda em seus anos iniciais.

Essa potencialidade para mostrar não apenas registros, mas contar novas perspectivas sobre acontecimentos torna o jornalismo ainda mais  fascinante em seu aspecto de memória. Ele se debruça sobre os grandes fatos – afinal um dos critérios da notícia é interessar à coletividade – mas eles são feitos dos pequenos acontecimentos do cotidiano que os jornais registram.

Valdir dos Santos: digitalização amplia acesso ao arquivo || Ag. A TARDE
Valdir dos Santos: digitalização amplia acesso ao arquivo || Ag. A TARDE

E isso se torna extremamente valioso quando se trata do acervo que pertence ao mais antigo jornal em circulação diária na Bahia, de forma ininterrupta, e um dos 19 no Brasil que ultrapassaram a barreira dos 100 anos. Nesse espaço, A TARDE Memória, portanto, vamos poder conhecer um pouco das boas histórias que essa memória preservada e organizada passa agora a oferecer para além das janelas do Cedoc. Aquela que guarda, mas também revela memórias sobre a Bahia.



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