Coronavírus: as ‘senhoras banqueiras’ que organizam socorro financeiro a latinos durante a pandemia nos EUA | Economia

Coronavírus: as ‘senhoras banqueiras’ que organizam socorro financeiro a latinos durante a pandemia nos EUA | Economia

Quando Hilda Robles lembra dos seus primeiros anos nos Estados Unidos, lágrimas brotam de seus olhos.

Quando ela chegou a San Antonio, no Texas, há cerca de 20 anos, até mesmo tarefas diárias simples como ir ao trabalho ou ao médico eram desafios, porque ela não tinha carro, não sabia inglês e não tinha quase ninguém a quem pedir ajuda.

Abrir uma conta no banco parecia impossível. “Quando entrei em um banco pela primeira vez, disseram que não poderia abrir uma conta porque não tinha número de seguro social”, diz ela, em referência ao registro que todo cidadão do país tem junto ao governo americano.

“Alguém me falou sobre um banco onde eu poderia abrir uma conta sem número do seguro social, mas a barreira do idioma me impediu.”


Foi então que Robles começou um tanda, um clube de poupança informal popular na América Latina, com contribuições de seus parentes.

Cada membro do clube contribui com uma quantia fixa para um fundo de forma regular e periódica. A soma total vai para um membro a cada rodada, até que todos recebam o pagamento.

Isso significa que os membros recebem de volta o que colocaram no fundo ao longo do plano, mas, ao obtê-lo na forma de uma quantia fixa, o dinheiro pode ser usado para compras, investimentos ou pagamentos de dívidas que de outra forma não poderiam arcar.

Os membros que pegam a quantia mais cedo estão efetivamente recebendo um empréstimo sem juros, enquanto aqueles que o recebem mais tarde no ciclo estão essencialmente sacando parte do dinheiro “economizado”.

Com os US$ 5 mil que recebeu de sua tanda, Robles comprou seu primeiro carro. Seus parentes e amigos do clube de poupança conseguiram fazer o pagamento de casas, pagar as mensalidades da universidade e, agora, em meio à pandemia de covid-19, usam esse dinheiro para sobreviver, porque ficaram desempregados ou doentes.

Desde aquele primeiro clube de poupança, há 14 anos, Robles, que hoje tem 49 anos, os administra continuamente, com apenas alguns meses de intervalo entre um e outro.

“Fico muito feliz em ver as pessoas alcançando seus objetivos por causa das tandas, sem ter que se afogar em dívidas de empréstimos. É a prova de que, entre nós, hispânicos, podemos progredir aqui.”

Clubes dão acesso a crédito a imigrantes durante a pandemia

Esse antigo mecanismo de poupança tem paralelos em todo o mundo. É geralmente conhecido como poupança rotativa ou associação de crédito.

No México, são popularmente chamados de tandas, mas também são conhecidos por outros nomes em várias partes do mundo. Comunidades de imigrantes continuam essa prática nos Estados Unidos.

À medida que as dificuldades econômicas acompanham a crise de saúde pública causada pela covid-19, para algumas famílias, os métodos tradicionais de poupança fora do sistema bancário se tornaram uma tábua de salvação, especialmente para as comunidades de imigrantes duramente atingidas com pouco acesso às principais fontes de crédito.

Isso tornou-se um assunto cada vez mais urgente em 2020. Mesmo antes da pandemia, os Estados Unidos estavam atrás de outros países ricos no que diz respeito a acesso a crédito.

Cerca de 7% dos americanos com mais de 15 anos não tinham nenhum tipo de conta bancária em 2017, em comparação com menos de 1% dos canadenses e menos de 4% dos britânicos, de acordo com o Banco Mundial.

Um quarto dos adultos americanos, ou seja, mais de 80 milhões de pessoas, eram “desbancarizadas”, o que significa que não tinham contas ou que precisavam recorrer a serviços alternativos aos bancos tradicionais para conseguir dinheiro suficiente para cumprir suas obrigações e alcançar suas metas.

As famílias com maior probabilidade de se enquadrarem nas duas categorias eram de negros ou hispânicos, sem qualificações universitárias e pobres. Para ter acesso a empréstimos, eles às vezes precisam recorrer a opções de empréstimo não bancárias, como credores informais ou agiotas.

Essas opções podem ser arriscadas, cobrar juros altos e trazer consequências terríveis. Uma tanda pode fornecer uma alternativa mais segura e confiável.

“Esses sistemas são realmente úteis quando temos sistemas bancários com possibilidades finitas”, diz Caroline Hossein, professora de negócios e estudos sociais da York University, que estuda estes sistemas em comunidades no Canadá.

“Os bancos têm apenas uma certa quantia de dinheiro, e se você tiver apenas uma certa quantia, você só vai dá-lo para aqueles que são menos arriscados. Portanto, faz todo o sentido que as pessoas se envolvam nesses tipos de ajuda mútua ou sistemas de concentração de dinheiro.”

Frequentemente, eles são dirigidos por mulheres, a quem Hossein chama de “senhoras banqueiras” da comunidade.

“A banqueira pode ser quem está organizando. Você pode entrar em contato com ela a qualquer hora do dia, pode ser alguém que more na sua vizinhança, então, é fácil chegar até ela. A papelada não é tão traiçoeira quanto seria em um banco formal, e existe uma espécie de ligação, porque são pessoas que se gostam e se conhecem.”

Embora tendam a ser “mais uma boia de salvação para pessoas que têm dificuldade de acesso aos bancos, especialmente para obter empréstimos”, esses esquemas de poupança também são usados ​​por membros mais estabelecidos de comunidades.

Além do acesso a um fundo de dinheiro, “um benefício principal é a construção de ‘laços de confiança mútua’ em uma rede de pessoas confiáveis”, diz Lee Martin, da Universidade da Califórnia. Tandas são benéficas principalmente para pessoas sem acesso às principais formas de crédito, afirma.

Mas, como eles são usados ​​por comunidades marginalizadas, estudar sua prevalência tem sido difícil, diz Hossein, que participa de uma tanda, conhecida como su-su em sua comunidade afro-caribenha, como parte de sua pesquisa.

“Muitas delas, principalmente em lugares como Canadá, Estados Unidos ou Europa, tendem a ser clandestinas”, diz ela.

Muitos temem que o empreendimento seja visto como uma forma de financiamento não respeitável ou até mesmo ilícita. Obviamente, ao contrário de uma conta poupança, eles não geram juros.

No entanto, os economistas acreditam que provavelmente são bastante comuns no Ocidente. Uma pesquisa com proprietários de empresas de vestuário coreano-americanas em Los Angeles, em 2004, descobriu que 77% das famílias participaram de uma versão deste sistema.

Como funcionam as tandas — Foto: BBC

Sistema tem benefícios inesperados e riscos

O autocrédito dentro das comunidades pode ter benefícios inesperados. Um sistema semelhante ao de uma tanda entre os imigrantes chineses na Espanha, por exemplo, ajudou os empresários expatriados a superar a crise do euro no final dos anos 2000 e 2010.

A comunidade empresarial chinesa estava “amplamente isolada pelos caprichos do vacilante sistema bancário de varejo do país”, informou o Financial Times em 2014.

Na crise de covid-19 de 2020, as famílias que participaram da tanda que Robles está administrando conseguiram pagar suas contas quando seus membros ficaram desempregados ou doentes.

Para a maioria, era a única fonte de dinheiro, diz Robles. Apenas uma das famílias recebeu o benefício do governo, porque não tinham os documentos para pagar o seguro-desemprego.

Como qualquer esquema de investimento, porém, as tandas não são isentas de riscos. Um participante pode deixar de pagar ou pegar sua parte e fugir. Robles diz que isso ocorreu raramente e que teve de completar a diferença do seu próprio bolso.

Como operam com base na confiança, geralmente dentro de uma comunidade profundamente conectada, as consequências sociais das más ações dissuadem casos assim.

Mas, como são administrados de forma privada, há poucos recursos legais contra quem trapaceia. E, ao contrário de colocar dinheiro em uma conta de poupança bancária, não há pagamento de juros.

Esquema enfrenta obstáculos para se popularizar

Será que as tandas podem se popularizar ainda mais?

Uma tentativa do Yahoo Finance de popularizar um aplicativode tanda em 2018 não teve sucesso. O esquema foi encerrado depois de apenas alguns meses devido, ao que parece, à falta de participação.

Existem dois grandes obstáculos, na opinião de Hossein: o estigma associado a uma ferramenta financeira não tradicional usada por minorias étnicas; e a barreira na confiança que deve ser superada para colocar a fé em outras pessoas para lidar com dinheiro.

Mas, com a pandemia de covid-19, a participação nas tandas de uma geração mais jovem de americanos com interesse em compartilhar recursos e tecnologia de forma eficiente, podem tornar o esquema em um método de economia mais comum.

Para Mayra Martinez, de 30 anos, que trabalha com administração universitária em Dallas, no Texas, estar em tandas a ajudou a aprender sobre confiança e a fomentar um senso de obrigação de economizar, o que pode ser difícil para jovens, diz ela.

“Não é como um compromisso consigo mesmo, onde você pode facilmente dizer ‘não vou fazer isso este mês porque simplesmente não quero’.”

É uma camada adicional de segurança econômica em um mundo que tem sido imprevisível para jovens profissionais, como atesta a experiência de Martinez. Sua irmã e seu cunhado recentemente testaram positivo para covid-19 e não puderam trabalhar. “Ela acabou de receber sua tanda esta semana”, disse Martinez.

A tanda em que Martinez está envolvida agora consiste em membros da família de todas as gerações e é administrada por sua mãe.

Ela criaria e administraria uma para ela e seus irmãos e primos quando as gerações mais velhas não mais participassem?

“Eu não me importaria…”, diz ela, acrescentando com uma risada: “Mas depende de quais primos”.


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Dum Leão

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