Coronavírus e os destaques da semana

Coronavírus e os destaques da semana

Beatriz Ferrão –
Publicado 27 de Sep de 2020 às 15:09

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A vacina contra Covid-19 desenvolvida pela Johnson & Johnson começou no dia 23 de setembro, com os testes de fase 3 nos Estados Unidos e em outros 7 países. Os ensaios clínicos da vacina de dose única incluirão até 60 mil participantes adultos em cerca de 215 locais.

Os testes de fase 3 começam imediatamente, com os primeiros participantes recebendo as doses nesta quarta, disse o diretor científico da Johnson & Johnson, Paul Stoffels, em uma conferência com jornalistas. A vacina foi desenvolvida pela Janssen Pharmaceutical Companies, subsidiária da Johnson & Johnson.

Leia mais: Oxford anuncia testes clínicos em humanos


A Johnson & Johnson é agora a quarta empresa a iniciar testes clínicos em larga escala para uma vacina contra a Covid-19 nos Estados Unidos, depois de Moderna, Pfizer/BioNTech e AstraZeneca. Enquanto as outras vacinas requerem duas doses, a solução da Johnson & Johnson será estudada como uma vacina de dose única, o que deve acelerar os resultados, disse Stoffels. “Estamos convencidos de que uma única dose pode ser muito eficaz“, disse.

Dados dos testes de fase 1 e 2 da vacina nos Estados Unidos e na Bélgica sugerem que uma única dose da vacina provoca resposta imune e é segura o suficiente para passar para testes em grande escala. O ensaio de fase 3 está sendo conduzido em colaboração com a Operação Warp Speed, o esforço do governo dos EUA para acelerar o desenvolvimento de imunizantes contra o novo coronavírus.

 

Os testes serão realizados na Argentina, no Brasil, no Chile, na Colômbia, no México, no Peru, na África do Sul e nos Estados Unidos (Foto: Reprodução/Exame)

A volta de torcedores aos estádios de futebol

Os torcedores de futebol deverão permanecer fora dos estádios durante os próximos jogos da Série A do Campeonato Brasileiro. Em decisão anunciada na tarde deste sábado (26), a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) manteve o veto à presença de público nos estádios, conforme previsto nos protocolos de prevenção à pandemia do novo coronavirus (covid-19). A decisão foi tomada por unanimidade, após reunião por videoconferência entre a entidade, e representantes dos 19 clubes da Série A e presidentes das federações estaduais.  

De acordo com nota oficial, o presidente da CBF, Rogério Caboclo, e os presidentes do clubes “declararam-se favoráveis ao retorno gradual do público aos estádios, desde que com aval das autoridades de saúde locais, de forma isonômica e guiado por todas as medidas previstas no estudo encaminhado pela CBF ao Ministério da Saúde”. 

A entidade admite em nota que isso ainda não é possível, e adiantou que “retomará o debate sobre o assunto a cada 15 dias para reavaliação do cenário em âmbito nacional”.

 

Coronavírus foi desenvolvido em laboratório?

Uma das especulações mais fortes sobre o novo coronavírus – e que já havia sido refutada pela comunidade científica –, voltou aos holofotes nesta semana. A hipótese de que o SARS-CoV-2 teria sido criado em laboratório ganhou novos contornos com a divulgação de um artigo recente, escrito por um grupo de pesquisadores chineses, em que dizem haver evidências de que o vírus foi “convenientemente criado” por cientistas durante o período de seis meses.  

O artigo, no entanto, está disponível somente na plataforma Zenodo, que é um repositório de dados e publicações abertas ao público, e ainda não saiu em nenhuma revista científica de peso, nem foi revisado por pares – parte do processo necessário para a publicação, em que um grupo de pesquisadores independentes revisa a metodologia, as análises e os resultados para avaliar se o estudo cumpre o rigor técnico exigido. A pesquisa chamou a atenção logo após um de seus autores, a virologista chinesa Li-Meng Yan, conceder uma entrevista a um programa de TV no Reino Unido falando sobre o tema. Imediatamente o assunto mobilizou cientistas no mundo todo que, em sua grande maioria, refutam a hipótese apresentada por ela.  

Eles destacam que as evidências mais robustas disponíveis até o momento indicam que não há provas concretas de que o vírus tenha sido criado artificialmente. Em uma declaração publicada no início da semana pela comissão científica da revista The Lancet, os especialistas reconheceram que as origens do SARS-CoV-2 ainda precisam ser determinadas com mais precisão, mas que “as evidências até agora apontam para a conclusão de que é um vírus que ocorre naturalmente, e não o resultado de uma criação em laboratório”. 

Ainda de acordo com a comissão, a pesquisa sobre as origens do SARS-CoV-2 deve “prosseguir de forma expedita, científica e objetiva, sem ser impedida por agendas geopolíticas e desinformação”. Neste recente estudo chinês, os pesquisadores indicaram três evidências que embasariam a tese de o vírus ter sido criado em laboratório. Na primeira, explicam que, de modo suspeito, a sequência genômica do SARS-CoV-2 é semelhante à de um coronavírus de morcego descoberto por laboratórios militares.  

A semelhança com o vírus presente no mamífero voador, no entanto, foi apontada por outros pesquisadores como um dos motivos que afastariam a hipótese de o patógeno ter sido criado em laboratório. Em estudo publicado em março na Nature Medicine, pesquisadores compararam o genoma desse novo coronavírus com os sete outros da família Coronaviridae conhecidos por infectar seres humanos. Os estudos indicaram que a estrutura central do vírus era distinta da de outros coronavírus que afetam humanos, porém muito semelhante à de um tipo que infecta morcegos e pangolins (animais vendidos ilegalmente na China por sua carne).  

De acordo com os pesquisadores, se alguém estivesse tentando manipular o novo patógeno, teria feito isso à imagem e semelhança de uma cepa já conhecida por causar a doença em humanos. A tese foi reforçada por uma pesquisa publicada no final de março na mesma revista, sugerindo que os pangolins devem ser considerados hospedeiros intermediários do vírus pela similaridade genética entre os patógenos encontrados neles e nos humanos. As outras duas evidências apontadas pelos pesquisadores chineses dizem respeito à proteína spike. Eles acreditam que a versão dessa estrutura presente no novo coronavírus tem elementos que só podem ter sido modificados e adaptados por mãos humanas.  

O SARS-CoV-2, assim como os outros coronavírus, tem uma estrutura muito primitiva, formada apenas por um genoma de RNA, envolto em uma camada que contém proteínas spike na sua superfície. Estas proteínas, que pelo seu formato de coroa deram nome à família, são responsáveis por se ligarem a um elemento específico do corpo humano e, assim, invadir as células do hospedeiro. No estudo publicado em março na Nature Medicine, os pesquisadores também analisaram as características desse componente do vírus e indicaram que ele é tão eficaz em desempenhar o papel de infectar os humanos que só poderia ter sido resultado de uma seleção natural, não de engenharia genética.  

Para comprovar isso, os cientistas usaram softwares avançados e simularam em computador possíveis mutações na proteína presente em outros coronavírus para ver se chegariam às mesmas alterações que as presentes no SARS-CoV-2. Nenhuma das mudanças previstas pelo programa seria tão eficiente quanto a encontrada no causador da Covid-19. Questionados sobre o assunto em reportagem da revista americana Newsweek nesta semana, seis especialistas em biologia evolutiva e doenças infecciosas afirmaram que o estudo chinês divulgado recentemente “não oferece informações novas e faz afirmações infundadas”.  

Um dos cientistas, Carl Bergstrom, que é pesquisador da Universidade de Washington, apontou que “o artigo não é baseado em uma interpretação objetiva do genoma do SARS-CoV-2”. Já em uma carta aberta publicada na American Council on Science and Health, o microbiologista Alex Berezow, que também indicou que o estudo “não deve ser levado a sério”, afirmou que os autores da publicação fazem parte de uma organização chamada Rule of Law Society, que não é uma organização científica. “Isso não significa automaticamente que os autores estão errados, mas levanta dúvidas suficientes sobre sua credibilidade”, escreveu.

(Foto destaque: Coronavírus e os destaques da semana. Reprodução/Mogi)

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