Primeiro-ministro do Líbano renuncia ao cargo | Mundo

Primeiro-ministro do Líbano renuncia ao cargo | Mundo

Segundo a agência de notícias Associated Press (AP), Adib disse à imprensa em Beirute que resolveu deixar o posto depois de ficar claro que o governo que ele queria montar estava “destinado a fracassar”.

O agora ex-primeiro-ministro era apoiado pelo presidente francês, Emmanuel Macron, que vinha pressionando os políticos libaneses a formarem um gabinete composto de especialistas não partidários, que pudessem trabalhar na aprovação de reformas para tirar o Líbano da crise econômica e financeira devastadora que enfrenta.

Mas os esforços de Adib esbarraram em vários obstáculos depois que os principais grupos xiitas do país, o Hezbollah e o Amal, insistiram em manter o controle do Ministério das Finanças, que deverá ter um papel crucial em traçar um plano de resgate econômico. A insistência surgiu depois que o governo dos Estados Unidos impôs sanções a dois políticos da alta cúpula próximos ao Hezbollah, incluindo o ex-ministro das finanças.


Os dois grupos também insistiram em nomear os ministros xiitas no novo gabinete e se opuseram à maneira como Adib estava formando o governo – sem consultá-los.

Depois de uma curta reunião com o presidente libanês, Michel Aoun, neste sábado (26), Adib disse que estava deixando o cargo depois que seus esforços chegaram a um beco sem saída.

“Pedi desculpas por continuar a missão de formar um governo depois que ficou claro que um gabinete com as características que estabeleci estaria fadado ao fracasso”, declarou Adib. Ele desejou “boa sorte a quem for escolhido para esta difícil tarefa depois de mim”.

Adib, que era embaixador na Alemanha antes de assumir o cargo, emergiu como candidato ao posto de primeiro-ministro depois de ganhar o apoio do ex-primeiro-ministro Saad Hariri e três outros ex-primeiros-ministros.

Os grupos xiitas, entretanto, acusaram Hariri de direcionar Adib em seus esforços de formação de gabinete, e disseram que se recusam a ser marginalizados. Hariri deixou o cargo no ano passado, em resposta a manifestações em massa exigindo a saída de toda a liderança do país – devido à corrupção, à incompetência e à má administração.

A renúncia de Adib veio poucos dias depois que o próprio presidente libanês disse à imprensa que o país iria para o “inferno” se um novo governo não fosse formado logo.

Presidente libanês, Michel Aoun, em discurso pela televisão na véspera do centenário do Líbano — Foto: Dalati Nohra/Handout/Reuters

Em um discurso transmitido pela televisão, Aoun criticou o Hezbollah e o Amal, seus aliados políticos, por insistirem em manter a pasta do Ministério das Finanças em qualquer novo governo – mas também criticou Adib por tentar formar um governo e impor nomes para cargos de gabinete sem consulta aos blocos parlamentares.

O presidente afirmou que “chegou a hora de declarar o Líbano como um “Estado laico”. As declarações foram feitas às vésperas de uma visita de Macron, que já tinha se declarado favorável a profundas reformas no país.

“Só um Estado laico é capaz de proteger o pluralismo, preservá-lo, transformando-o em unidade verdadeira”, disse Aoun.

No Líbano, os cargos eletivos são divididos de acordo com as religiões majoritárias no país (metade do Parlamento fica com cristãos e a outra metade, com muçulmanos. De acordo com as regras, o primeiro-ministro deve ser um muçulmano sunita – caso de Adib. Já o presidente, Michel Aoun, é cristão.

Sistema político do Líbano é dividido em correntes religiosas

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Já o Hezbollah – do árabe “Partido de Deus” – é uma facção sediada no Líbano formada por militantes radicais da minoria xiita no país. Apoiado pelo Irã, o grupo nasceu na década de 1980 para enfrentar tropas de Israel que ocupavam o território libanês.

Nas décadas de 1990 e 2000, o grupo se fortaleceu fora das ofensivas armadas e intensificou a participação na política libanesa, conquistando cadeiras no Parlamento.

Lixo empilhado é visto ao longo de uma rua em Ain el-Remmaneh, Líbano, no dia 21 de setembro. — Foto: Mohamed Azakir/Reuters

Um ex-protetorado francês, o Líbano está atolado na pior crise econômica e financeira em sua história moderna.

Desde outubro pasado, a lira desvalorizou em 80%, provocando cenas de fome e desespero até então raras num país que, até a década passada, era considerado um oásis de prosperidade no Oriente Médio.

A crise foi agravada pela pandemia do coronavírus – que, até este sábado (26), havia deixado 333 mortos no país, segundo monitoramento da universidade americana Johns Hopkins. A situação libanesa foi agravada pela explosão no porto de Beirute.

Em março, o país deixou de pagar sua dívida pela primeira vez, e a moeda local entrou em colapso, levando à hiperinflação e ao aumento da pobreza e do desemprego. As negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre um pacote de resgate foram paralisadas.

A pobreza é uma realidade nova para os libaneses: no início do ano, a previsão do Banco Mundial era de que pelo menos 50% da população ficaria pobre. O dólar sumiu do mercado paralelo; pensões, aposentadorias e poupanças derreteram. O sistema bancário paralisou.

Na crise econômica mais severa desde o fim da guerra civil, que arrasou o país de 1975 a 1990, falta eletricidade na maior parte do território do Líbano. Os libaneses têm acesso à luz elétrica duas ou três horas por dia.

Macron fala com libanesa durante visita a Beirute, no dia 6 de agosto. — Foto: AP Photo/Bilal Hussein

Macron tomou a dianteira da resposta internacional à crise no Líbano — chegou a circular na internet uma petição para que ele assumisse temporariamente o controle do país, o que demonstrou, simbolicamente, o rechaço dos libaneses a toda a classe política do país.

A recepção efusiva a Macron quando visitou Beirute, momentos depois das explosões de agosto, preocupou o presidente Michel Aoun, sobretudo após o francês dizer que o Líbano teria de passar por reformas profundas.


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