Pitty, a relevância da crítica na música para quebrar tabus

Pitty, a relevância da crítica na música para quebrar tabus

Priscilla Novaes Leone é uma mulher baiana de 42 anos. Cantora, compositora, apresentadora e muito mais. Talvez, você a reconheça por outro nome. Pitty, como é conhecida, é uma das maiores figuras do rock nacional. Uma curiosidade interessante é que seu nome artístico também é o nome da banda da qual faz parte.

Banda Pitty
Banda Pitty. | Foto: Culturaliza BH.

Desde 2003, quando lançou seu primeiro álbum de estúdio, Admirável Chip Novo, a soteropolitana desafia tabus com letras carregadas de caráter reflexivo e transgressor, tornando-a, assim, uma artista fundamental no cenário da música brasileira.

 Através de 5 álbuns de estúdio aclamados, suas canções abordam temas como o sistema, formas de controle social e alienação, capitalismo, julgamentos, personalidades superficiais, ideia de posse em relacionamentos, necessidade do olhar interno e transformações ao longo da vida. 


No intuito de refletir acerca da forma como suas músicas atemporais contribuem para elevar discussões e promover críticas, fizemos a análise dos álbuns da cantora que trazem letras impactantes e fundamentais.

Pitty: Análise de seus álbuns

Admirável Chip Novo 

Não há como falar sobre a discografia de Pitty sem mencionar seu primeiro álbum de estúdio. Admirável Chip Novo, 2003, é, sem dúvidas, um dos trabalhos mais revolucionários do rock no Brasil.

Admirável Chip Novo
Admirável Chip Novo. | Foto: Nação da música.

Pitty, em seu álbum de estreia, não mostra receio de dizer o que pensa e abordar críticas polêmicas através das 11 faixas do disco. Dentre elas, é válido destacar a canção homônima ao projeto.

Na música, que tem esse nome como uma forma de analogia ao livro: Admirável Mundo Novo, existe uma crítica explícita ao sistema e como ele induz os indivíduos a se comportarem como meros robôs. O trecho “Não senhor, sim senhor…” expressa claramente a forma como os pensamentos e autonomia são suprimidos pelo consumo alienante. Ainda na letra, com o uso de imperativos, Pitty ordena: “Pense! Fale! Compre! Beba!”, convidando aos “robôs”, que representam a sociedade, a sair de seu estado de inércia. Mas, infelizmente, isso não funciona, pois, ao final da música, o sistema é reinstalado. 

Ainda neste disco, encontramos a faixa intitulada Máscara. No single, que a consagrou na indústria, a artista clama para que as pessoas não sejam versões superficiais de si e retirem as camadas que colocaram em seus rostos apenas para se encaixar naquilo que é convencionado. Assim, ela consagra um hino de autoaceitação, ao incentivar que os indivíduos sejam eles mesmos, por mais bizarros que pensem ser. 

Em Teto de Vidro, a crítica está sobre o julgamento que fazemos quanto aos outros e que fazem sobre nós. A hipocrisia é forte tema aqui, visto que, podemos, muitas vezes, considerar que somos imaculados e olhar para o outro como inferior, atingindo seu telhado com pedras, e esquecendo, por vezes, que nosso teto também é frágil

Anacrônico 

álbuns Pitty
Anacrônico. | Foto: Acesso music.

O segundo álbum da baiana, considerado um dos melhores pela crítica, ousa ainda mais, com o gênero punk rock sendo levado ao extremo e vocais agressivos tomando conta da experiência, as discussões, agora, trazem tópicos como julgamentos, alcoolismo, violência, e até mesmo amor, em uma melodia melancólica no clássico: “Na sua estante”. 

Chiaroscuro 

Há muito que falar sobre Chiaroscuro, terceiro álbum de estúdio da banda Pitty. Lançado em 2009, o disco de faixas inéditas não decepciona quanto a debates imprescindíveis que são desenvolvidos de forma progressiva por meio das 11 canções que o compõe.

músicas Pitty
Chiaroscuro. | Foto: Encartes pop.

“Todo mundo tem segredos que não conta nem pra si, todo mundo tem receio do que vê diante do espelho”. A frase, da música 8 ou 80, que abre disco, disserta acerca da complexidade do ser humano, que não tem apenas partes boas ou ruins, mas sim, uma imensidão no meio disso, que não necessariamente precisa ser compreendida por todos a seu redor, e muitas vezes, nem por si mesmo.

O single Me Adora, queridinho dos fãs, usa do artifício do diálogo, com a pessoa a quem a cantora se refere na música, para discutir as expectativas criadas no processo de conhecer alguém e como isso pode ser frustrado quando a pessoa não se encaixa naquela ficção. Assim como, às vezes, a falta de coragem de expressar a admiração por alguém, pode fazer com que, uma atitude, se vier, chegue tarde demais.

Pitty
Single Me Adora. | Foto: Besouros de prata.

Água contida, quarta faixa do álbum, faz jus a seu nome. Sentimentos, rancores e angústias que nos prendem podem ser acumulados, fazendo com que esse peso, nos prenda, dia a dia. A música expõe a importância de deixar essas águas transbordarem para atingir o estado de leveza. Já na canção Fracasso, o ego é colocado em questão, em uma crítica sobre a forma como esquecemos de nos colocar no protagonismo do resultado de nossas próprias ações e futuro, atribuindo sempre aos outros a culpa pelo que dá errado. 

Em Desconstruindo Amélia, Pitty debate o feminismo e o papel da mulher na sociedade, construindo uma narrativa sobre o despertar de uma mulher após desafiar a vida passiva, imposta a ela pela sociedade vigente. “Disfarça e segue em frente todo dia até cansar. Cansar de não ser vista como um ser humano e sim como um objeto, programado e servente”. É uma música sobre libertação e um manifesto de não conformidade.

Em uma artimanha clássica, o disco guarda uma de suas melhores músicas para o final. Todos estão Mudos é a expressão da artista, chocada, pela omissão seletiva da sociedade frente a assuntos importantes. “Alguém precisa falar”. A canção consagra a atemporalidade da cantora, visto a atual conjuntura de injustiças e ataques aos direitos humanos. Assim, a letra implora que as pessoas assumam posicionamentos e não fiquem alheias frente às injustiças.

Setevidas

O nome do álbum resume sua proposta. Aqui, o cerne da questão está em mutações. Transformações na perspectiva interna. A partir daqui, Pitty entra em uma jornada de autoconhecimento, que rende conversas interessantes sobre maturidade e recomeços.

Setevidas Pitty
Setevidas. | Foto: Plano Crítico.

“Pra que essa pressa de embarcar, na jangada que leva pro lado de lá?”. No trecho da canção, Lado de lá, o suicídio é colocado em foco e o debate é sobre saúde mental, em uma maestria que envolve instrumentos em uma dança melancólica e deliciosa de escutar. Ainda sobre o olhar interno, em Olho Calmo, a discussão traz à tona o silêncio, que suprime, muitas vezes, nossos pensamentos, e faz com que alimentemos um rancor silencioso, que pode acumular-se tanto e, de repente, ser extravasado de forma agressiva.

Em Setevidas, que intitula o projeto, resiliência é questão constante. “Só nos últimos cinco meses, eu já morri umas quatro vezes, ainda me restam três vidas pra gastar”. Apesar das experiências difíceis, a mensagem é sobre renascimento, a forma como, mesmo que não vendo a vida com o mesmo brilho, o reerguer é de enfrentamento. 

Finalmente, chegamos à Serpente. Uma música bela, catártica e suave, uma espécie de “spoiler” ou flerte com o alternativo, melodia leve que dá gosto de escutar. Agora, as inferências são sobre um novo começo, o passado é considerado uma pele de cobra, Pitty faz constante alusão ao elemento do fogo como uma forma de transcender para uma nova vida. “Chega dessa pele, é hora de trocar”, nós somos pessoas que mudam constantemente e, assim, recomeçamos novos ciclos, com novas relações, crenças e personalidade. A música é um presente que fecha o disco com maestria.

música brasileira
Serpente. | Foto: Reprodução YouTube.

Matriz

“Eu me domestiquei para fazer parte do jogo, mas não se engane maluco, continuo bicho solto”. Essa é a primeira afirmação do mais novo trabalho de Pitty. O disco Matriz, de 2019, apesar de ter a sonoridade muito diferente do rock clássico, antes trazido, continua a desmistificar tabus e dialogar sobre movimentos sociais, relacionamentos abusivos, a necessidade do olhar para dentro, busca pela boêmia e retorno à terra de origem.

Matriz álbum
Matriz. | Foto: Encartes pop.

Noite Inteira é o manifesto por movimentos sociais. A música mostra como os posicionamentos distintos devem ser sustentados por uma coisa em comum, o respeito. E como não há silêncio diante da opressão, e sim luta, revolução, frente a um sistema seletivo e corrompido. Já Ninguém é de Ninguém, desmistifica a noção de posse em relacionamentos, o título é autoexplicativo, cada pessoa é livre para fazer suas próprias escolhas, e mesmo que a expressão “te tenho” seja constantemente romantizada, isso nunca pode ser levado ao sentido literal.

músicas
Ninguém é de Ninguém. | Foto: Radio Rock.

Engana-se quem pensou que as questões subjetivas seriam esquecidas. No disco, além de aclamar o estado em que nasceu, a Bahia, Pitty salienta a importância de se distanciar da correria do dia a dia e ouvir o que diz o interior, arriscando-se em um reggae que preza pelo resgate boêmio na intenção de nos fazer questionar: Estamos realmente onde queremos? Esse é o nosso lugar? 

Por fim, vale a pena mencionar, Submersa, a música é muito atual ao expor angústias do dia a dia, que parecem fazer com que nos afoguemos, sem conseguir respirar. Mas, ainda assim, é possível não se deixar estar nesse estado, através de novos ares e abrindo as portas e janelas, de novo, apelando para um certo “Carpe Diem”.

E aí, gostou da nossa análise? Então, não deixe de conferir o site para mais conteúdos sobre música e os mais demasiados assuntos.

__________________________________
Por Eduardo Augusto – Fala! UFG


Compartilhe
Comente

Dum Leão

dumleao

Acesse e confira produtos incríveis…
Participe desse experiência.
3Cs – Confira! Compre! Compartilhe!