Senadores baianos criticam ministro por visita de secretário americano

Senadores baianos criticam ministro por visita de secretário americano

No retorno às atividades presenciais, a Comissão de Relações Exteriores (CREO) do Senado Federal aprovou a convocação do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, para comparecer ao Senado na próxima quinta-feira, 24, às 10h, para explicar a visita do secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, a Roraima, na última sexta-feira, onde foram realizadas críticas ao governo da Venezuela, endossadas pelo chanceler brasileiro.

Senadores, que divulgaram nesta segunda-feira, 21, uma nota de repúdio aos ataques do secretário de Estado dos EUA à Venezuela, classificaram a visita como um ato de campanha em favor da reeleição do presidente Donald Trump (Republicano) e não como uma visita diplomática e humanitária, em uma área de fronteira que sofre com problema de imigrantes que fogem do regime de Nicolás Madura.

O senador Angelo Coronel (PSD) criticou Ernesto Araújo pela “tentativa” de criar um “fato favorável” para o presidente dos EUA, que está em campanha pela reeleição. “Não podemos admitir que nossa soberania, o nosso espírito de brasilidade, seja afetado por atos de insanidade por parte de um ministro que quer aproveitar o momento político norte-americano para criar um fato positivo para Donald Trump. O Brasil não pode servir de fantoche”, ressalta Coronel.

Em 2019, o presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) já havia opinado sobre o processo eleitoral na Argentina, afirmando que se caso a esquerda retornasse ao poder, o povo do país vizinho sofreria com uma “tragédia”. Ao comentar sobre o resultado da eleição vencida por Alberto Fernández e Cristina Kirchner, Bolsonaro afirmou, à época, que “bandidos de esquerda começam a voltar ao poder”.

Coronel lembra do episódio e destaca que não é papel do “presidente do Brasil achar que o Macri é bom ou ruim, que o maduro é bom ou ruim”. Ele destaca que esse papel cabe “ao povo Argentino e Venezuelano” e pontua que essa “intromissão” do Brasil poderá acarretar em danos para o país.

E cita a eleição norte americana de 2020: “E se por caso o Joe Biden (Democrata) ganhar, como fica nossa relação comercial nosso grande parceiro? Já que bolsonaro tem aquela paixão por Trump; Paixão de mais pode se transformar em loucura”.

Crítico da visita do secretário de Estado dos EUA, o senador Jaques Wagner (PT) chegou a apresentar um voto de censura contra o ato, que definiu como uma “presença inusitada” com objetivo único de “provocar a Venezuela”.

“Não foi um ato corriqueiro. O senhor Mike Pompeo visitou exatamente a Colômbia, Brasil, Suriname e a Guiana. Ou seja, o entorno da Venezuela, a quem eles querem ameaçar a eleição legislativa que ocorrerá em dezembro. Ele chegou em Boa Vista e fez questão de ir perto da fronteira, para que o governo da Venezuela pudesse ouvir as suas bravatas. Usou o solo nacional, ferindo a Constituição brasileira. Nós não somos base dos EUA, aqui”, lembrou Wagner.

O líder do PSD no senado e presidente da sigla na Bahia, Otto Alencar (PSD), falou de “ato eleitoreiro” e de “subserviência” ao tratar da visita do ministro Mike Pompeo ao Brasil.

“O Brasil não pode servir de instância eleitoral para um ministro dos EUA vir, provocar um país vizinho e fazer palanque para o Donald Trump. Lamento muito que o governo federal, através de Ernesto Araújo, em um ato anti-nacionalista, entreguista, com fins político, afete a autonomia, a altivez da política internacional brasileira”, lamentou Alencar.

Crítico do governo de Nícolas Maduro, o senador do PSD lamenta atitudes do governo do país vizinho para “calar a imprensa” e estabelecer “critérios rígidos para o controle das manifestações democráticas”. Mas avalia que isso não é motivo para que o Brasil atue para intervir na soberania da Venezuela e nem coloque “em xeque” a sua, ao se colocar em uma situação de subserviência ao governo dos EUA.

Visita política

Analista internacional e doutora em ciência política, a professora da Unilab, Juliana Vitorino, explica que visitas de presidentes e secretários “são sempre eventos políticos”. Ela avalia que na visita do secretário de Estado dos Estados Unidos ao país, faltou uma “uma agenda de temas a serem tratados com o Brasil” e teve um caráter do que ela classificou como um “golpismo narrativo”.

“A ida a Roraima, por exemplo, é um símbolo desse golpismo, pois utiliza de forma desrespeitosa a emergência humanitária que há na região, onde existem ainda milhares de pessoas, várias delas venezuelanas em busca de refúgio no Brasil. Lá o Secretário declara, por exemplo, “vamos tirá-lo de lá”, se referindo ao Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Em apenas uma frase, ele desacredita a diplomacia e envolve o Brasil no que pode ser entendido como ingerência nos assuntos internos de um terceiro país”, sinaliza Vitorino.

A analista internacional lamenta que uma visita tão importante tenha como resultado um “vago comunicado sobre o combate à Covid-19 e que as relações BR-EUA continuam fortes”. Ela define como “frustrante” ver que “o Itamaraty não conseguiu nem comunicar nossos interesses, nem propor uma agenda”. Ela lamenta que ocorra no Brasil uma “paralisia do Itamaraty, de seu corpo técnico e político”.

A professora com doutorado em Ciência Política classifica como “normal” uma visita de um secretário de estado em “período eleitoral de seu país”, mas deixa claro que a ausência de uma agenda de interesses abre margem para interpretação de que a visita tinha um “viés ideológico e eleitoral”: “É uma pena que o Brasil não tenha se articulado com o restante da região para recebê-lo e comunicar interesses comuns, como era prática de nossa diplomacia. Escolhemos nos isolar e dar espaço para o questionamento de governos, abrindo chance para novos ciclos de instabilidade política na América do Sul”.




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