Rússia tem eleições regionais com o envenenamento de Navalny como pano de fundo | Mundo

Rússia tem eleições regionais com o envenenamento de Navalny como pano de fundo | Mundo

Os russos comparecem às urnas neste domingo (13) para eleições regionais marcadas pelo envenenamento do principal opositor do Kremlin, Alexei Navalny – cujos simpatizantes pedem um “voto inteligente” –, uma crise econômica agravada pelo coronavírus e protestos em alguns pontos do país.

Em 41 das 85 regiões do maior país do mundo os eleitores escolhem governadores, representantes nas assembleias regionais ou municipais e quatro deputados para o Parlamento nacional.

As eleições locais e regionais acontecem a um ano das legislativas de setembro de 2021 e são consideradas um teste para a máquina eleitoral do Kremlin, em um clima de descontentamento com a queda do nível de renda e os problemas econômicos.

As eleições acontecem em três dias, de sexta-feira a domingo, em algumas áreas em centros de votação ao ar livre, oficialmente para limitar os riscos do novo coronavírus. Mas a oposição afirma que as condições favorecem as fraudes.

A presidente da Comissão Eleitoral Central, Ella Pamfilova, declarou que as acusações “não são suficientemente objetivas e são maliciosas”.


A campanha teve como destaque a presença de opositores, sobretudo na cidade siberiana de Novosibirsk, a terceira de maior população no país, onde uma aliança de 30 candidatos independentes, incluindo simpatizantes de Navalny, desafia o partido de Vladimir Putin, Rússia Unida.

A cidade teve uma campanha com direito a grandes cartazes com os rostos dos candidatos e frases como “Diga Não!” e “Vote para mudar o sistema”.

Serguei Boiko, que lidera uma coalizão opositora em Novosibirsk com o apoio de Navalny, disse à AFP neste domingo que aconteceram muitas infrações e citou um local de votação onde os funcionários “excluíram os nossos observadores”.

“E no cofre que contém as cédulas dos dois primeiros dias de votação, os lacres estão quebrados. Alguém teve acesso às cédulas… isto certamente alimenta suspeitas de falsificações”, disse.

Boiko, 37 anos, afirma que desbaratou os planos do Rússia Unida e do Partido Comunista, que segundo ele “já haviam dividido os bairros da cidade entre eles, esperando uma campanha fácil”.

“Os tempos estão mudando, as pessoas estão mudando, têm opiniões, novos pontos de vista, não querem ser marginalizadas”, afirmou Elena Kalivkina, 48 anos, que votou neste domingo em Novosibirsk.

As eleições regionais também representam uma oportunidade para a oposição testar a sua tática do “voto inteligente”, que consiste em pedir votos para o candidato em melhor posição para derrotar o aspirante do governo.

A tática deu resultados no verão passado em Moscou, nas eleições municipais em que o Rússia Unida perdeu muitas cadeiras, principalmente para os comunistas.

A estratégia foi elaborada por Alexei Navalny, o principal adversário do Kremlin, que ficou gravemente doente em agosto, durante uma visita à Sibéria para apoiar candidatos da oposição e investigar a corrupção da elite local. Ele continua hospitalizado em Berlim.

De acordo com os médicos alemães, Navalny foi envenenado na Rússia com um agente nervoso do tipo Novichok, uma substância criada no período soviético para fins militares. O opositor de 44 anos saiu do coma na segunda-feira passada.

A comunidade internacional pediu explicações às autoridades russas e a responsabilização judicial dos envolvidos. O Kremlin, porém, questiona a versão do envenenamento e denuncia acusações infundadas, apesar da ameaça de sanções.

Simpatizantes da oposição foram alvos de ataques, pressões e ameaças ao longo da campanha.

Além do Rússia Unida, o Partido Comunista e o LDPR (nacionalistas), as eleições têm candidatos de quatro novos partidos, centrados respectivamente no conservadorismo, nos empresários, na ecologia e novas tecnologias. Mas existe a suspeita de que foram estimulados pelo governo para dividir o eleitorado da oposição e dar uma sensação de pluralismo.

Em um cenário econômico e social difícil, com acusações de corrupção e a reforma previdenciária de 2018, a popularidade do partido de Vladimir Putin caiu a apenas 30% de opiniões favoráveis, de acordo com pesquisas recentes.

O mal-estar provocou protestos em algumas regiões.

Dezenas de milhares de pessoas protestaram nos últimos dois meses contra a detenção de um governador que derrotou em 2018 o candidato apoiado pelo Kremlin.

O caso do ex-governador de Jabarovsk e o movimento de protesto na vizinha Belarus provocaram manifestações de solidariedade em pequena escala em várias cidades russas.


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