“O incentivo por candidaturas negras já denuncia uma desigualdade racial”, diz cientista política

“O incentivo por candidaturas negras já denuncia uma desigualdade racial”, diz cientista política

O racismo e a desigualdade presentes na sociedade brasileira se refletem também no espaço político, onde menos de 8% das candidaturas municipais em 2016 se autodeclararam negras, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A pesquisa aponta também que, em 2018, apenas 4% dos candidatos negros tiveram sua eleição realizada para as câmaras federais, onde atualmente apresenta menos de 25% de composição ocupada por pessoas negras.

Com cerca de 56% da população se autodeclarando negra, o Brasil ainda possui uma política formada majoritariamente por pessoas brancas. De acordo com a cientista política e pesquisadora em Política, Direito e Relações Raciais, pela Universidade de Brasília (UnB) Nailah Neves Veleci, em entrevista ao Portal A TARDE, a manutenção de status quo da elite política, que é branca, é prejudicial por fazer políticas ineficazes, tanto por não conseguirem pensar em políticas para toda a população quanto por questões orçamentárias, pois, por fazer políticas que precisaram ser reformuladas, gastam dinheiro que poderia estar indo para outra área.

“Racismo é uma relação de poder e, por ser estrutural, interfere negativamente em todos os ambientes da vida de toda a sociedade. Por ser uma relação de poder é também disputado politicamente. Quando Cida Bento nos explica como funciona o Pacto Narcísico da Branquitude nas empresas e no poder público, nós conseguimos compreender que a negação e omissão do racismo nesses espaços influenciam na não discussão na agenda pública sobre as mazelas sociais e desigualdades que o negro enfrenta”, explicou a cientista política.

Nailah Neves Veleci é cientista política e pesquisadora
Nailah Neves Veleci é cientista política e pesquisadora

Segundo Nailah Neves Veleci, o negro no Brasil não é um recorte, pois corresponde a 56% da população. Isso significa que as mazelas e desigualdades que atingem a população negra, atingem a maioria da população. Pensando neste cenário de desigualdade, o projeto Enegrecer a Política lançou a campanha ‘#EnegreçaSeuVoto’ para incentivar os votos em candidaturas negras nas eleições de 2020. A iniciativa busca visibilizar candidatos negros e suas agendas como forma de fortalecimento da democracia representativa do país.

A iniciativa é formada por sete organizações de todo o Brasil que se uniram. São elas: o Fórum Marielles, Movimento Mulheres Negras Decidem, Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas, Blogueiras Negras, Bigu Comunicativismo, Observatório Feminista do Nordeste e Coletivo de Mulheres Negras do Pará.

Para a professora associada da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e integrante do Fórum Marielles e do Coletivo Angela Davis, Angela Figueiredo, ainda falta vontade e consciência política de governantes e partidos políticos em reconhecer processos históricos de desigualdades, o legado da escravidão, o processo sistemático da discriminação racial e de gênero, o racismo que efetivamente impactou e impossibilitou que pessoas negras ocupassem as instâncias de poder na sociedade.

“O cenário político de Salvador é dominado por uma hegemonia branca que representa somente 15% da população. É evidente que não temos representatividade política, dos 63 deputados estaduais que estão na Assembleia Legislativa da Bahia, apenas 10 são mulheres e somente uma é negra, que é Olivia Santana, uma mulher reconhecida pela sua história de luta. Com 54% do eleitorado feminino, Salvador somente teve uma mulher na prefeitura, Lídice da Mata e jamais uma mulher negra”, enfatizou.

Angela Figueiredo é professora e integrante do Fórum Marielle e Coletivo Angela Davis
Angela Figueiredo é professora e integrante do Fórum Marielle e Coletivo Angela Davis

O incentivo por candidaturas negras nas eleições, de acordo com a cientista política Nailah Neves Veleci, antes de tudo já denuncia uma desigualdade racial nos espaços de poder. Ela frisou que nem toda candidatura negra é representante de uma agenda política negra construída coletivamente em prol do combate ao racismo, contudo, a presença na disputa já é um avanço no quesito representatividade da diversidade ideológica da população negra.

“Agora, sendo um candidato negro com agenda política negra, nós temos uma introdução nos debates públicos sobre as mazelas que atingem a população negra. No Brasil, que teve e tem o mito da democracia racial internalizado na população, trazer o debate racial para a esfera pública é uma forma de conscientização tanto do eleitor quanto dos partidos e de outros candidatos para esse problema que é fundamental e que atravessa todas as pautas como educação, segurança, saúde…”, pontuou.

O engenheiro civil, palestrante e ciberativista Levi Kaique Ferreira vem buscando por candidatos negros que tenham como plataforma a educação e políticas voltadas para a comunidade negra e pobre. Segundo ele, uma diversidade maior nas Câmaras de Vereadores e Prefeituras irá trazer um olhar mais atento aos problemas vividos pela população negra. “Precisamos de políticas públicas com esses olhares. O Racismo amplifica diversos dos nossos problemas sociais e, enquanto a classe política não compreender isso, continuaremos com números como os do mapa da violência, em que o número de violência contra brancos diminui, mas contra negros aumenta”, disse ele.

Levi Kaique é engenheiro civil, palestrante e ciberativista
Levi Kaique é engenheiro civil, palestrante e ciberativista

Na visão de Nailah Neves Veleci, “por uma perspectiva negra, a diferença da extrema-direita no poder é só que o racismo agora não é mais velado, porque em questão de cidadania negra continua o mesmo desrespeito aos direitos”.

A cientista social afirmou que as políticas antirracistas podem continuar sendo esvaziadas com a desestruturação de órgãos ou com a retirada de recursos no orçamento. Contudo, ela acredita que há uma esperança no escancaramento do racismo, que é não conseguir mais negar a sua existência. Assim, é possível proporcionar uma chance na disputa de candidaturas negras, com a força das discussões sobre racismo nas redes sociais e também com o constrangimento dos partidos que apresentam poucas candidaturas negras.

“Ser racista pode ser um capital político negativo que nenhum partido quer em um país com 56% de negros. Também temos os influenciadores querendo seguir uma cartilha de politicamente correto que poderão, por constrangimento e medo de serem taxados como racistas (cancelados), ajudarem a dar mais visibilidade à agenda política negra e a candidaturas negras. E na era digital, esse capital midiático tem peso”, declarou a pesquisadora.

As sementes de Marielle

Em 14 de março de 2018, o Brasil presenciou o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco. Por ser mulher negra, LGBT e favelada, atuando politicamente na defesa dos direitos humanos, Marielle era uma ameaça àqueles que encomendaram a sua morte.

O caso impactou o cenário político brasileiro de diferentes formas, fazendo o assunto ganhar repercussão internacional. Isso também causou impacto na candidatura de pessoas negras. Nailah Neves Veleci afirmou que o assassinato de Marielle impactou candidaturas negras por trazer para a arena politica, em pleno período eleitoral, as suas pautas e a forma como o Brasil e a mídia desumanizam pessoas negras.

“A discussão sobre o assassinato de Marielle e como seu caso foi tratado institucionalmente e denunciado internacionalmente pelos movimentos, principalmente movimentos de mulheres negras, provocou tanto revolta, estimulando candidaturas negras, quanto o eleitorado que se familiarizou com a importância das pautas que a vereadora defendia. Não é atoa que na mesma eleição que tivemos [Jair] Bolsonaro presidente, tivemos mais mulheres negras eleitas”, declarou.

Com o passar do tempo, nos articulamos em torno de uma resposta ao feminicídio político que ceifou a vida de Marielle. Desse modo, brotaram muitas candidaturas de mulheres negras como nunca antes na história, certamente como uma resposta política.

Angela Figueiredo, integrante do Fórum Marielle e Coletivo Angela Davis


De acordo com Angela Figueiredo, o assassinato de Marielle Franco exerceu, inicialmente, uma influência muito negativa, pois causou abalos e um grande medo de haver outros destinos como o da ex-vereadora. A professora pontuou que, com o passar do tempo, uma resposta ao feminicídio político foi produzida e, assim, brotaram muitas candidaturas de mulheres negras, como nunca antes na história.

“Certamente como uma resposta política importante para os partidos, mas também para a sociedade mais abrangente, principalmente por não ter sido identificado até agora o mandante do crime”, declarou Angela.

“Nesse sentido, sabemos que a eleição de mulheres negras é um ato de desobediência colonial e patriarcal que altera a hegemonia masculina e branca na política”, completou.




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Dum Leão

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