‘Mudança social já ocorreu, governo Lukashenko apenas resiste ao inevitável’, avalia embaixador brasileiro em Belarus | Mundo

‘Mudança social já ocorreu, governo Lukashenko apenas resiste ao inevitável’, avalia embaixador brasileiro em Belarus | Mundo

A comunidade internacional acompanha com preocupação as gigantescas manifestações contra o presidente de Belarus, Alexander Lukashenko, desde que foi anunciada a sua reeleição para um 6º mandato.

Ainda é muito cedo fazer um prognóstico do futuro de Lukashenko, na avaliação do embaixador brasileiro em Minsk, Paulo Fernando Dias Feres.

“Do ponto de vista da sociedade, uma mudança já ocorreu, o governo apenas resiste ao inevitável. A questão é por quanto tempo”, afirma o embaixador brasileiro, que está no país há cerca de um ano e meio.

Em 9 de agosto, o governo anunciou que Lukasheko venceu a desafiante Svetlana Tikhanovskaya com 80% dos votos – resultado que a oposição atribui a uma fraude. Opositores saíram às ruas e foram duramente reprimidos pelas forças de segurança do país que fez parte da antiga União Soviética (URSS).

Presidente da Belarus, Alexander Lukashenko, participa de reunião com o chefe do Supremo Tribunal do país, Valiantsin Sukala, em Minsk, nesta segunda-feira (31) — Foto: Nikolai Petrov / BelTA / AP

Um dos protestos mais numerosos teria reunido pelo menos 200 mil manifestantes. Desde então, cerca de 7 mil pessoas foram presas e houve relatos de tortura, superlotação das prisões e até de violência sexual. Com medo, Svetlana deixou o país e aguarda na Lituânia a disposição do regime para abertura de diálogo.

Svetlana Tikhanovskaya líder da oposição ao presidente de Belarus, Alexander Lukashenko, dá entrevista em Vilnius, na Lituânia, em 22 de agosto — Foto: Petras Malukas / AFP

Embora Lukasheko, de 66 anos, sempre tenha enfrentado uma certa oposição, é a primeira vez, desde 1994, que a população vai às ruas para pedir mudanças. A atual onda de contestação pode estar sendo impulsionada pela nova geração.

“Acredito que exista algum medo [de se manifestar], mas que ele não é paralisante. Lukashenko imaginou que, se fizesse uma repressão forte no início, a população se amedrontaria, o que não aconteceu. Isso tem muito a ver com uma nova geração que tem até uns 35 anos. Eles não conheceram a União Soviética e parecem não ter medo dele”, observa o embaixador.

Foi a dona de casa Svetlana Tikhanovskaya, de 37 anos, que acabou se tornando a porta-voz dos que buscam mudança e que conseguiu mobilizar a oposição no país.

A ex-professora de inglês decidiu concorrer após o seu marido, o blogueiro Serguei Tikhanovski, ter sido preso enquanto fazia campanha. Outros opositores também foram detidos e impedidos de participar do pleito, mas a candidatura da dona de casa foi aceita.

9 de agosto – Manifestantes correm pela fumaça durante protesto após a eleição presidencial de Belarus, em Minsk — Foto: Sergei Grits/AP

Inicialmente, o regime parece não tê-la identificado como ameaça relevante.

“Lukashenko subestimou Svetlana porque era mulher, dona de casa, mãe, não tinha experiência política – o que se mostrou um erro. Mas o resto da oposição se reuniu em volta dela e ela se transformou no rosto de um movimento de resistência”, afirma o embaixador brasileiro.

No dia da votação, imagens que circularam nas redes sociais e na mídia independente mostravam filas de eleitores com um bracelete branco em apoio à opositora, mostrando claramente sua vantagem.

O pleito não teve observadores internacionais e nas seções eleitorais estavam presentes apenas representantes do governo e voluntários locais.

Há fotografias que circularam nas redes sociais que mostram mais de 100 seções de votação em que os mesários proclamaram a vitória da Svetlana – o que dava indícios de que seria impossível que ela conseguisse apenas 9,9% dos votos, como foi anunciado pelo governo.

5 pontos para entender a crise em Belarus

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A comunidade internacional, incluindo grandes potências como a União Europeia e os Estados Unidos, faz apelos pela abertura de diálogo entre o governo e a oposição.

A União Europeia, que rejeitou o resultado da eleição, prometeu mais sanções contra líderes do regime responsáveis por “violência, repressão e fraude eleitoral” e acena com a possibilidade de aplicação de sanções econômicas.

Em 23 de agosto, presidente da Belarus, Alexander Lukashenko, apareceu em público armado com um rifle perto do Palácio da Independência em Minsk — Foto: State TV and Radio Company of Belarus via AP

“A oposição quer negociar com o governo e acha que não é hora de impor sanções econômicas sérias contra o país, porque elas poderiam prejudicar enormemente a população”, afirma Feres.

Lukashenko descarta a realização de novas eleições, mas chegou a sinalizar sua disposição de deixar o poder se um referendo aprovar mudanças constitucionais.

Especialistas viram a proposta como uma manobra para acalmar os ânimos e ganhar tempo. Apesar da pressão, não há dúvidas de que o presidente mantém o controle do país.

“A oposição deu um passo importante, mas a elite governante e força de segurança estão fechados com o presidente. Pode-se dizer que a estrutura da administração do Lukashenko teve algumas erosões, mas nenhuma rachadura séria até o momento”, observa Feres.

Crise em Belarus — Foto: Juliane Monteiro/ G1

Foto de novembro de 2017 mostra os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e de Belarus, Alexander Lukashenko durante encontro em Minsk — Foto: Tatyana Zenkovich /AP

Diante da pressão da oposição, Lukashenko tem criado várias narrativas para tentar justificar o atual momento político.

Antes da eleição, chegou a acusar mercenários russos de tentarem desestabilizar a situação sem seu país. Após a vitória contestada, ele passou a afirmar que existe um plano dos países do ocidente para ocupar seu território e, por isso, volta a pedir ajuda para a Rússia, tradicional parceira política, econômica e militar.

Embora a relação entre os dois países tenha passado por recentes turbulências, a atuação russa será crucial para o desfecho do impasse.

Inicialmente, o Kremlin considerou que a crise era “um assunto interno” do país vizinho e condenou “tentativas de interferência estrangeira” no assunto.

Porém, nesta quinta-feira (27), o presidente Vladimir Putin mudou o tom e afirmou estar pronto para enviar policiais russos para conter os protestos em Belarus. No domingo (31), Putin ligou para dar parabéns a Lukashenko.

A Rússia vê Belarus como um território importante contra a expansão do Ocidente e como um ponto de passagem estratégicos para as suas exportações, especialmente no setor energético.

Lukashenko, saudosista da URSS

Lukashenko mantém um regime autoritário desde que chegou ao poder em 1994, três anos após o país ganhar sua independência da URSS.

A sua chegada à presidência marca a vitória da corrente bielorrussa que vê com bons olhos a aproximação com Moscou em oposição àqueles que acreditavam que o país deveria se voltar para a Europa, como aconteceu com a Estônia, Letônia e Lituânia, que atualmente integram a União Europeia (UE).

Porém, Lukashenko manobra habilmente a relação do seu país com as potências europeias, os Estados Unidos e Rússia – a reconhecida herdeira da antiga União Soviética.

Sua relação com os países ocidentais melhorou nos últimos anos, principalmente depois que a Rússia anexou, em 2014, a Crimeia, que pertencia à Ucrânia. Ele se manteve neutro no conflito e propôs Minsk como sede das negociações de paz. Em contrapartida, foram suspensas sanções econômicas impostas pela UE ao país em 2006, após uma repressão brutal a manifestantes pacíficos.

Lukashenko também procura manter uma relação privilegiada com os russos e, assim, manter viva uma certa herança dos tempos áureos da URSS, que concentrou em seu território a indústria pesada e eletrônica.

Belarus foi membro fundador da União Econômica Eurasiática (UEE), um dos projetos favoritos do presidente Vladimir Putin, com o objetivo de reintegrar as antigas repúblicas soviéticas. O apoio russo ajuda o país a manter o setor industrial e agrícola relativamente bem-sucedidos.

Desde 2019, a relação dos dois países tem passado por um momento de tensão. Putin usa a dependência de Belarus de petróleo e gás natural russos para pressionar pela reativação de um acordo entre os dois países que data de 1999, o Tratado de União de Estados, assinado na época em que Boris Yeltsin ainda liderava Rússia.

O governo russo tem condicionado a continuidade de linhas de crédito com taxas “de pai para filho” e o fornecimento de petróleo a preços muito inferiores aos de mercado em troca de uma maior capacidade de interferência em assuntos internos bielorrussos.

Diante da resistência de Lukashenko, a Rússia suspendeu temporariamente em janeiro de 2020 a entrega de petróleo a baixo custo, que garantia a competitividade da produção das duas grandes refinarias bielorrussas na Europa. O impacto negativo é sentido diretamente na economia, que é altamente controlada pelo governo.


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