Por que ser antipático é contrário à evolução?

Por que ser antipático é contrário à evolução?



A seleção natural nos tornou mais propensos à gentileza e à sociabilidade, traços que foram fundamentais para nosso desenvolvimento como espécie. Foto mostra mulheres dando risada e se abraçando enquanto posam para foto.
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Você é amigável, fraterno, atencioso e adora fazer amor? Ou é uma pessoa cuja agressividade o afasta de qualquer grupo?
A sociabilidade se estrutura assim, em duas categorias: comportamentos que levam à atração de animais da mesma espécie, ou aqueles que levam ao isolamento de indivíduos.
E, quem diria, tudo indica que o Homo sapiens evoluiu para a primeira categoria por meio de um processo de autodomesticação, mesmo com lamentáveis ​​exceções que é melhor não mencionarmos.
Felizmente, a gentileza sobreviveu. Devemos isso ao fato de que a seleção natural favoreceu a evolução de nossa espécie como seres grupais e pró-sociais.
E é claro que, quando nos comparamos com outros primatas, as habilidades de cooperação e comunicação que nos caracterizam foram — e são — fundamentais para nosso desenvolvimento cognitivo como espécie. Em outras palavras, elas foram responsáveis ​​por nos fazer pensar, raciocinar, sentir e nos expressar como fazemos hoje.
Sofremos a síndrome da domesticação
Se nos compararmos com animais domesticados e selvagens, somos mais semelhantes aos primeiros do que aos últimos.
A domesticação, como normalmente a entendemos, envolve a seleção de indivíduos dóceis. Mas, se olharmos com atenção, observamos que esse processo não afeta apenas o comportamento, promovendo a mansidão, mas também resulta no aparecimento de características que também afetam o corpo.
Isso inclui orelhas caídas, nariz mais curto, maturação sexual precoce, aparência jovem prolongada em adultos e menos dimorfismo sexual (diferença externa entre homens e mulheres). Até a redução do tamanho do crânio, mandíbula e dentes.
Tudo isso, junto com as mudanças nos níveis de diferentes hormônios e neurotransmissores, é o que se denomina síndrome da domesticação. Embora essas características não sejam detectadas em todos os animais domesticados, elas guardam certa relação com esse processo.
Como não poderia deixar de ser, deve haver alguma base biológica que explique, ou pelo menos nos ajude a compreender, a ocorrência comum desses aspectos relacionados à domesticação.
E assim é. Foi detectado que, durante o desenvolvimento do embrião de animais domesticados, a função de uma estrutura chamada crista neural diminui.
As células da crista neural são um tipo de células-tronco que, entre outras funções, são responsáveis ​​pela formação de parte do crânio, precursores de dentes, gânglios nervosos e certas glândulas que, devido à sua função, estão associadas à síndrome de domesticação.
Na verdade, se nos compararmos com outros hominídeos mais próximos de nossa espécie, como os neandertais, as diferenças são notáveis. Nosso crânio e dentes são menores, a estrutura craniana de um jovem é semelhante à de um adulto, há menos dimorfismo sexual e parecemos ser menos agressivos. Em outras palavras, nós nos domesticamos.
Baixa e alta sociabilidade estão presentes em nossos genes
Neste ponto, podemos considerar que o comportamento social é uma habilidade-chave que nos diferencia das outras espécies.
E, se pensarmos em decifrar suas bases biológicas, a melhor maneira de fazer isso é estudar o que há de diferente nas alterações e doenças relacionadas com a sociabilidade. Por exemplo, os transtornos do espectro do autismo (TEA) e a síndrome de Williams, nos quais há baixa e alta sociabilidade, respectivamente.
Pessoas com TEA tendem a manifestar comportamentos repetitivos, distúrbios de linguagem e têm dificuldade em se relacionar socialmente.
Embora alterações em centenas de genes tenham sido associadas ao TEA, ainda não foi encontrada uma causa genética comum em todas essas pessoas.
Claro, deve haver uma base genética, porque, em até 96% dos gêmeos idênticos, se um deles sofre da doença, o outro também, embora os sintomas possam ser um pouco diferentes.
Entre as diferenças neurobiológicas encontradas no TEA, foram detectadas alterações no volume de quase todas as áreas do cérebro, com maior ou menor tamanho dependendo da região cerebral e da pessoa.
Uma diminuição no número e no tamanho dos neurônios e alterações nas conexões entre eles também foram descritas. Cabe destacar que um aumento no crescimento acelerado do cérebro foi observado em alguns pacientes durante o primeiro ano de vida.
Os níveis de diferentes neurotransmissores também são afetados no TEA. Principalmente aqueles que produzem um desequilíbrio entre a excitação e a inibição dos neurônios, sendo as principais causas mutações genéticas ou distúrbios metabólicos.
Um neurotransmissor — e hormônio —, que está assumindo alguma relevância na regulação da sociabilidade e do comportamento agressivo no TEA e em outros transtornos neuropsiquiátricos é a ocitocina.
No outro extremo da sociabilidade, encontramos pessoas com síndrome de Williams. Nesse caso, a base genética está bem estabelecida, pois falta um pedaço do cromossomo 7, e cerca de trinta genes são ausentes.
Esses genes estão associados, precisamente, à domesticação e ao desenvolvimento da crista neural. E o mais interessante: essas pessoas são hipersociáveis, sem medo de estranhos e muito amigáveis, às vezes até demais.
Mesmo sendo considerado um transtorno com retardo mental, quem sofre dessa síndrome costuma apresentar excelentes habilidades musicais.
Visto que, como indicamos antes, a bondade sobrevive graças à evolução, prestemos atenção à escritora Raquel J. Palacio: “Sempre digo que é melhor errar do lado da bondade. Esse é o segredo. Se você não sabe o que fazer, seja gentil.”
*Francisco José Esteban Ruiz é professor titular de Biologia Celular na Universidade de Jaén, na Espanha.
*Este artigo foi publicado originalmente em The Conversation e é reproduzido sob a licença Creative Commons. Clique aqui para ler o artigo original, em espanhol.


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Dum Leão

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