O que mudou no Kuwait 30 anos depois da invasão do Iraque por Saddam Hussein | Mundo

O que mudou no Kuwait 30 anos depois da invasão do Iraque por Saddam Hussein | Mundo

Em 2 de agosto de 1990, o exército iraquiano, então comandado pelo presidente Saddam, cruzou a fronteira com o Kuwait e matou centenas de pessoas que resistiram à invasão. A empreitada obrigou governantes do Kuwait a se exilarem na Arábia Saudita.

Para muitos, a data marca o início de uma etapa longa e turbulenta da história do Oriente Médio.

Derrubada do avião comercial iraniano ocorreu durante a guerra entre Irã e Iraque. Na época, os EUA apoiaram os iraquianos e seu líder, Saddam Hussein (à direita na foto). Anos mais tarde, os EUA entrariam em guerra contra o Iraque para derrubar Saddam Hussein — Foto: KEYSTONE/GETTY IMAGES via BBC

A invasão pegou de surpresa tanto o pequeno país produtor de petróleo, quanto a comunidade internacional. Depois de uma série de advertências e de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, uma coalizão liderada pelos EUA e apoiada por Arábia Saudita e Reino Unido deu início a uma missão militar para expulsar as tropas iraquianas em 17 de janeiro de 1991.


Tratava-se da maior coalisão do tipo desde a Segunda Guerra Mundial.

Após semanas de intensas batalhas aéreas e navais, seguidas de uma incursão por terra, o Iraque se rendeu no fim de fevereiro e aceitou restaurar a soberania do Kuwait pouco depois.

Em Bagdad, a invasão foi descrita pelo ex-chanceler iraquiano Hoshyar Zebari como “uma das decisões mais terríveis” de Saddam Hussein.

Já no Kuwait, a empreitada é vista como um episódio infeliz, que deixou um rastro de problemas econômicos, políticos e sociais.

“Saddam chegou a se desculpar com o Kuwait em algum momento, muitos anos após a invasão. Acho que ele próprio viu o ato como um erro”, disse à BBC Nayef Al-shammari, professor de economia da Universidade do Kuwait.

Depois de 30 anos, a invasão do Kwait ainda é uma ferida aberta na região. Mas o que mudou no pequeno país desde então?

A invasão trouxe luz à vulnerabilidade dos menores territórios do golfo Pérsico. Também expôs os efeitos de uma relação próxima com os EUA e outras grandes potências.

Emir do Kuwait Sabah al-Ahmad al-Sabah (à esquerda), em imagem de arquivo — Foto: Nasser Waggi/ AP

“É uma região muito volátil do mundo, com países muito pequenos cercados por países muito maiores”, diz Kristian Ulrichsen, especialista em Oriente Médio no Instituto Baker da Universidade Rice, em Houston, Estados Unidos.

“Até a década de 1980, os EUA não estavam realmente presentes no Golfo, como estão hoje. E essa foi uma decisão tomada, em parte, pelos pequenos Estados da região, que perceberam que precisavam de uma garantia de segurança, papel que o Reino Unido desempenhou até 1971”.

Desde a Guerra do Golfo, os EUA instalaram diversas bases militares nos países do Golfo Pérsico.

Sozinho, o Kuwait atualmente abriga cerca de 13 mil tropas dos EUA, de acordo com relatórios do Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA (CRS).

Em 1986, o então emir do Kuwait, Jaber al-Ahmed al-Sabah, fechou o parlamento argumentando que a segurança do país estava “exposta a uma feroz conspiração estrangeira que colocou vidas em risco e quase destruiu a riqueza da pátria”.

Ele se referia a desdobramentos da guerra entre o Irã e o Iraque e à ameaça que esse conflito representou ao próspero país petrolífero.

Boa parte do povo Kuwait deixou o país, mas muitos ficaram e ajudaram as forças da coalizão internacional — Foto: Getty Images via BBC

Ulrichsen diz que o Kuwait, diferentemente de outros países do Golfo, já tinha um parlamento relevante no cenário político da época.

“Era um momento de disputa em que os políticos obviamente queriam poderes, mas o governo e a família dominante não necessariamente concordavam.”

No início dos anos 1990, um grupo de ex-parlamentares começou a pressionar o governo para restaurar o parlamento, o que detonou uma crise política a partir da qual o emir tentou criar uma nova Assembléia Nacional, mais fraca que a antiga, em vez de restaurar a que havia suspendido.

O movimento foi boicotado.

“Já havia tensões no Kuwait antes da invasão, mas o que aconteceu depois foi que muitos cidadãos e políticos kuwaitianos deixaram o país e se refugiaram na Arábia Saudita. Pouco depois, em outubro de 1990, um grande reencontro foi organizado no país. Na avaliação da família governante, o resultado traria reconciliação e juras de lealdade vindo dos cidadãos”, diz o especialista no Oriente Médio.

Mas o que realmente aconteceu foi uma rodada de negociações entre o governo, seus cidadãos e os políticos da nação petroleira.

“Eles disseram: ‘se jurarmos lealdade, queremos garantias de que a Assembléia será restaurada.’ Assim, houve uma espécie de toma lá, dá cá”, continua o professor.

Em outubro de 1992, depois de recuperar sua soberania, o Kuwait organizou eleições gerais com a participação de mais de 80% da população votante.

Desde então, as funções do parlamento continuaram funcionando sem grandes interrupções.

“Até certo ponto, a invasão contribuiu para a restauração da vida política e parlamentar no Kuwait.”

O economista do Kuwait Nayef Al-shammari concorda que a participação das pessoas na vida política e nas eleições agora é maior.

“Isso também se deve ao advento das redes sociais”, ressalta.

Divisão entre quem saiu e quem ficou

A invasão iraquiana criou rachas sociais no Kuwait entre aqueles que permaneceram no país durante os quase sete meses de ocupação e aqueles que decidiram se refugiar no exterior.

Estima-se que 400 mil kuwaitianos tenham fugido após a invasão, um número que representava quase metade dos cidadãos do país em 1990.

Na época, o Kuwait tinha pouco mais de 2 milhões de habitantes, das quais cerca de 60% eram estrangeiros.

Os que ficaram não escondem um ressentimento sobre os que deixaram o país rumo a uma vida mais confortável em locais como Arábia Saudita, Egito, Estados Unidos, França ou Reino Unido.

Segundo relatos, o governo da nação rica em petróleo transferiu quantias superiores a mil dólares para a maioria de seus cidadãos exilados — e a quantia que poderia dobrar ou triplicar, dependendo do tamanho da família e do custo de vida local.

“Nosso profeta é mais precioso do que nossa vida”, diz uma faixa em um protesto no Kuwait contra o periódico satírico Charlie Hebdo, após a publicação de uma ilustração mostrando o profeta Maomé chorando — Foto: Getty Images via BBC

Embora a ferida deixada pela invasão tenha cicatrizado ao longo dos anos, especialmente nas novas gerações, ainda existe um setor da população que se lembra e se ressente esse êxodo.

Um país mais conservador

Enormes reservas de petróleo tornaram Kuwait um dos países mais ricos do mundo. Em comparação com outras monarquias do Golfo, o país tem um sistema político mais aberto.

Apesar de riqueza e de ter o parlamento mais antigo e influente dos seis estados que compõem o Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo, o Kuwait continua sendo um país “muito conservador”.

Kristian Ulrichsen, da Rice University, diz que esse aspecto da sociedade do Kuwait se acentuou e perdura, 30 anos após a invasão.

“Acho que o trauma social foi tão grande que os kuwaitianos se tornaram mais islâmicos e, de certo modo, mais conservadores”.

O conservadorismo alcançou, inclusive, as relações com outras nações da região.

“Antes, o Kuwait oferecia ajuda financeira a outros países do Oriente Médio. Então, em 1990, percebeu-se que alguns países que se beneficiaram da ajuda do Kuwait, como Jordânia e Iêmen, apoiaram Saddam Hussein ou tentaram ser neutros durante a invasão. Isso fez os kuwaitianos deixarem de confiar tanto nos vizinhos.”

Nas últimas décadas, o país de maioria muçulmana sunita viu alguns avanços sociais, como a introdução do voto das mulheres, em 2005, e a decisão de que as mulheres obtenham passaportes sem o consentimento de maridos, em 2009.

Mas também houve episódios em que o governo foi acusado de restringir as liberdades, como quando vários canais de televisão foram proibidos de transmitir informações sobre uma suposta conspiração contra o sistema de governo em junho de 2014.

Ou quando o líder da oposição, Mussallam Barrak, foi condenado a cinco anos de prisão em 2013 por “minar a autoridade do emir”.

Uma economia mais dependente do petróleo

Todo conflito bélico traz conseqüências econômicas e essa invasão gerou perdas multimilionárias para toda a região – especialmente para o Kuwait.

O Kuwait é um dos maiores exportadores de petróleo do mundo — Foto: Gregory Bull, File/AP

A indústria do petróleo foi a mais atingida após a queima de centenas de poços de petróleo do Kuwait pelo exército iraquiano no início de 1991, mas o setor se recuperou.

“Em 1990, pouco antes da invasão, produzíamos 1,5 milhão de barris por dia (mbd), e atualmente estamos em 2,8 mbd, então pode-se dizer que a produção melhorou consideravelmente”, diz Nayef Al-shammari, professor de economia da Universidade do Kuwait.

Naquela época, a renda gerada pela exploração de petróleo representava quase 40% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, lembra o economista, valor que agora está em torno de 60%.

“Agora somos muito mais dependentes do petróleo, mesmo falando sempre de planos para diversificar a economia.”

Atualmente, o país é sustentado pelas exportações de petróleo que contribuem com mais de 90% do orçamento nacional total, uma porcentagem também superior ao período anterior à guerra.

Al-shammari considera que uma invasão como a de 1990 poderia ter encorajado melhorias estruturais — o que, segundo ele, não aconteceu no Kuwait.

“Houve melhorias sociais e algum progresso político, mas as distorções econômicas ainda persistem, apesar de todos os anos que se passaram.”


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Dum Leão

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