Como a cidade mais branca dos EUA foi parar no centro dos protestos antirracismo | Mundo

Como a cidade mais branca dos EUA foi parar no centro dos protestos antirracismo | Mundo

Em algumas cidades americanas, as manifestações – iniciadas em maio, quando George Floyd, um americano negro, foi morto sob custódia de um policial branco – perderam o vigor ao longo do tempo.

Mas, em Portland, os protestos não apenas continuam sendo realizados diariamente desde 29 de maio, como também ganharam ainda mais força recentemente, desde que o presidente Donald Trump decidiu enviar agentes federais à cidade.

A medida foi duramente criticada pelos líderes locais e levou uma multidão às ruas, em um embate que vem ganhando manchetes há vários dias.


A intensidade dos protestos em Portland não surpreende, já que os moradores são conhecidos por seu ativismo. Mas chama a atenção o fato de que a maioria dos participantes das manifestações antirracismo são brancos.

Isso é um reflexo da composição racial de Portland, considerada a mais branca entre as grandes cidades americanas (com mais de 500 mil moradores).

Segundo os dados mais recentes do censo, somente 6% da população de Portland é negra. Enquanto no país inteiro os negros representam 13% da população, no Estado de Oregon eles são apenas 2%.

A homogeneidade racial não ocorreu por acaso, mas é fruto de um passado racista e de políticas adotadas ao longo do século 19 para garantir que a cidade e o Estado fossem habitados somente por pessoas brancas. Essa história contrasta com a imagem liberal que a cidade tem atualmente, e ainda hoje é desconhecida por muitos americanos.

“Mesmo antes de Oregon se tornar um Estado, houve um esforço para criar aqui uma pátria branca, e isso foi construído principalmente por meio de leis que excluíam pessoas negras”, diz à BBC News Brasil o professor Ethan Johnson, que preside o Departamento de Estudos Negros da Universidade Estadual de Portland.

Hoje um dos redutos mais progressistas dos EUA, cidade chegou a proibir a presença de negros no século 19 — Foto: Reuters/Caitlin Ochs

Sem escravidão e sem pessoas negras

A partir dos anos 1840, moradores de Estados como Missouri começaram a cruzar o país e ocupar o território onde hoje fica o Estado de Oregon, na costa Oeste americana, em terras que, originalmente, pertenciam aos povos indígenas que habitavam a região.

Muitos desses colonos eram fazendeiros brancos que não tinham escravos. Eles não queriam repetir no novo lar as dificuldades enfrentadas em seus Estados de origem, onde tinham de competir com outros proprietários de terras que contavam com trabalho escravo. Por isso, eram contra a escravidão. Mas também não queriam que pessoas negras morassem no território.

Em 1843, os moradores aprovaram a proibição da escravidão em todo o território. Mas, como alguns dos colonos haviam trazido escravos consigo, um ano depois foi aprovada uma emenda à lei estabelecendo um prazo para que todos os negros – escravizados ou livres – deixassem o território.

A emenda permitiu que proprietários de escravos tivessem tempo de se adaptar às novas regras. O prazo para que pessoas negras abandonassem o território era de dois anos para homens e três anos para mulheres. Quem permanecesse após esse período seria punido com açoitamento em público, repetido a cada seis meses, até que fossem embora.

Essa lei foi posteriormente revogada, sem que ninguém tenha sido punido com açoitamento, mas deu início a uma série de medidas que tinham como objetivo impedir que pessoas negras se estabelecessem em Oregon. De 1849 a 1854, vigorou uma lei que proibia “qualquer negro ou mulato de entrar ou residir” no território.

Nos debates sobre a constituição de Oregon, em 1857, foi incluída após votação popular uma cláusula segundo a qual “nenhum negro ou mulato livre que não estiver residindo dentro deste Estado no momento da adoção desta constituição deve jamais entrar, residir ou permanecer dentro deste Estado, ou manter qualquer propriedade”.

Quem violasse a lei seria removido, e quem trouxesse, abrigasse ou empregasse pessoas negras também seria punido. A cláusula só seria revogada em 1926.

Assim, em 1859, Oregon entrou para a União como o único Estado “exclusivamente branco”, onde não apenas a escravidão era proibida por lei, mas também a presença de pessoas negras.

Protestos se intensificaram com a chegada de agentes federais — Foto: Reuters/Caitlin Ochs

Emendas à Constituição e segregação

Apesar de o cumprimento da cláusula da constituição estadual não ter sido rígido, assim como havia ocorrido com as leis anteriores de exclusão de pessoas negras, o simples fato de esse tipo de restrição ter sido incluído na legislação teve o efeito desejado de restringir o número de moradores negros. Em 1860, o Estado tinha apenas 128 negros entre os mais de 52 mil habitantes.

Em 1866, após o fim da Guerra Civil e a abolição da escravidão em todo o país, Oregon ratificou a 14ª emenda à Constituição americana, garantindo cidadania a todos nascidos ou naturalizados nos Estados Unidos, incluindo ex-escravizados. Mas, dois anos depois, o Estado revogou a ratificação. A emenda só seria ratificada novamente por Oregon mais de cem anos depois, em 1973.

Em 1870, Oregon foi um entre apenas seis Estados que se recusaram a ratificar a 15ª emenda, que deu a homens negros direito ao voto. O Estado só ratificou essa emenda em 1959.

A resistência de Oregon não conseguiu impedir que as emendas à Constituição americana fossem aprovadas nacionalmente – e, com isso, fizessem com que suas leis locais perdessem efeito. Mas sua postura mesmo assim teve impacto sobre a população negra.

“Enviou uma mensagem de que pessoas negras não eram bem-vindas”, ressalta Johnson.

Nos anos que se seguiram, Oregon começou a implementar uma série de medidas para segregar a população negra, adotando muitas das práticas que costumam ser mais relacionadas aos Estados do Sul americano.

Em Portland e outras cidades de Oregon, moradores negros não podiam frequentar os mesmos bares e restaurantes que a população branca, eram proibidos de adquirir propriedades na maioria dos bairros habitados por brancos e eram barrados de piscinas públicas, entre outras restrições.

Na década de 1920, apesar do pequeno número de habitantes negros, Oregon abrigava uma das maiores organizações do grupo supremacista branco Ku Klux Klan, com a realização desfiles, cerimônias públicas e queima de cruzes. Vários dos integrantes do grupo ocupavam cargos importantes no governo local.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a população negra de Oregon passou de 2 mil para 20 mil pessoas. A maioria morava em Vanport, uma cidade construída para abrigar trabalhadores recém-chegados. Mas, com o fim da guerra e a volta dos soldados brancos, muitos dos moradores negros perderam seus empregos.

Uma enchente em 1948 inundou e destruiu Vanport, deixando mais de 18 mil desabrigados, grande parte deles negros. Muitos acabaram se instalando em uma área de Portland chamada Albina, um dos únicos locais da cidade onde pessoas negras não eram impedidas de adquirir propriedade.

Esse fluxo causou uma “fuga” de moradores brancos, e Albina se transformou em centro da comunidade negra de Portland. Mas, nas últimas décadas, novos projetos imobiliários acabaram valorizando a região e atraindo moradores brancos. Com a alta dos preços, muitos dos antigos moradores negros foram forçados a abandonar a área.

Mesmo após o fim das leis de exclusão e segregação, Oregon continuou a ser um lugar atraente para supremacistas brancos. Nos anos 1980, Portland abrigava um dos maiores movimentos skinhead do país. Em 1988, um grupo de supremacistas brancos matou a pauladas um estudante negro etíope na cidade, em um crime que gerou atenção nacional.

Mas, nas décadas seguintes, Portland começou a ganhar fama de progressista. Hoje, a reputação de cidade liberal é tão grande que já inspirou uma série de TV (Portlandia) e está presente no slogan local, “keep Portland weird” (mantenha Portland esquisita).

Segundo Johnson, a luta da comunidade negra em Portland e em Oregon foi limitada pelo pequeno número de pessoas, diferentemente do que ocorreu em outras partes do país, onde negros formam parcela maior da população.

“Com isso, muitos moradores brancos de Portland podem ter a impressão equivocada de que o racismo não é uma questão tão grande na cidade”, afirma.

Mas Johnson salienta que o passado racista ainda tem impacto sobre a vida dos moradores negros de Portland, que enfrentam desigualdades em acesso a saúde, educação, bons empregos e em vários outros setores.

Moradores negros são desproporcionalmente afetados pela violência policial e têm renda média equivalente à metade da renda das famílias brancas. Estudos indicam que, em termos de renda e riqueza, as famílias negras em Portland ficam atrás não apenas de famílias brancas da cidade, mas também da média nacional para famílias negras.

A cidade também foi palco de episódios recentes de violência contra pessoas negras. Em um dos casos mais chocantes, em 2017, um homem em um trem começou a agredir verbalmente duas passageiras negras, uma das quais usava o hijab, véu usado por mulheres muçulmanas. Quando três outros passageiros tentaram intervir, ele atacou os homens a facadas, matando dois deles e ferindo o terceiro.

Apesar de muitos moradores negros declararem amor à cidade e dizerem que se sentem confortáveis, mesmo sendo minoria, as desigualdades persistentes levam alguns analistas a afirmar que a fama de progressista de Portland é apenas um mito.

Essa tensão está presente nos protestos, que inicialmente se concentravam em denunciar o racismo e brutalidade policial, mas nas últimas semanas também passaram a ter como objetivo fazer com que os agentes federais, oficialmente enviados para proteger prédios públicos, deixem a cidade.

Enquanto o presidente Trump chama os manifestantes de “anarquistas”, citando casos em que incitaram violência, as autoridades locais dizem que os protestos são em sua maioria pacíficos e acusam as forças federais de “abuso de poder”. O próprio prefeito foi atacado pelos agentes com gás lacrimogêneo, ao lado de manifestantes.

Muitos dos manifestantes negros continuam considerando positiva a participação da população branca. Mas outros dizem que os protestos estão perdendo o foco.

Em artigo de opinião publicado no jornal “The Washington Post”, o presidente da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês) em Portland, E.D. Mondainé, disse que os protestos se transformaram em um “espetáculo” e que o foco deveria voltar a ser o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) e o racismo enfrentado pela população negra.

“Vandalizar prédios do governo e jogar projéteis contra agentes da lei chama a atenção. Mas como essas ações impedem a polícia de matar pessoas negras?”, criticou Mondainé.


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Dum Leão

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