Reabertura é recebida com cautela

Reabertura é recebida com cautela

A primeira fase da retomada das atividades econômicas em Salvador teve início na última sexta-feira, com a reabertura de shoppings e centros comerciais, grandes lojas de rua, igrejas e templos. O movimento registrado nos centros comerciais mostra que muitos estavam ansiosos por esse retorno, mas há também aqueles que preferem adotar protocolos pessoais de prevenção à Covid-19, sem alterar suas rotinas por conta da suspensão de alguns decretos.

A empresária, artesã e professora de yoga Tarsila Ferreira, 37 anos, pretende manter os mesmos procedimentos e hábitos do período de maior restrição de atividades em Salvador. Sua loja continuará focada nas vendas online e por outros meios virtuais, com retirada no local ou entrega em casa. As aulas de yoga e bordado também continuarão sendo feitas a distância.

“A gente transpira, respirando a gente acaba forçando mais, também fica muito próximo, então eu não confio”, explica a professora, que já avisou aos alunos que não mudará a yoga para o modo presencial. Tarsila explica que manterá suas saídas habituais para ver os pais, comprar tecidos e outros materiais para a loja e seu artesanato, e para entregar os produtos a quem agenda a retirada na loja.

A empresária conta que não se sente segura em lojas grandes, principalmente nas que têm ar condicionado, e também evita lugares cheios. Ela reforça que não pretende ir a shoppings tão cedo, assim como não deve frequentar restaurantes quando forem reabertos, o que está previsto para a segunda fase do planejamento municipal.

Quanto a parques, com abertura prevista na terceira fase, ela considera que são espaços com maior segurança quanto ao contágio com o coronavírus, assim como as praias. Sua ressalva é o comportamento da população, que tende a se aglomerar. “Vou caminhar na orla e vejo as pessoas muito juntas”, ressalta.

Parques e praias estão entre os locais que serão frequentados pela administradora Flávia Lessa, 38, assim que o acesso for liberado, mas sempre observando a lotação. “Se estiver muito cheio, não ficarei”, garante. Ela frequentava uma academia antes da pandemia, mas pretende continuar se exercitando em casa até que surja uma vacina contra o vírus Sars-CoV-2.

As academias fazem parte da segunda fase da reabertura econômica em Salvador, que está condicionada à ocupação de leitos de até 70%, mantida por cinco dias, e só pode ocorrer 14 dias após a implantação da primeira fase. A segunda etapa inclui salões de beleza, barbearias, museus e centros culturais, entre outros espaços.

“Vejo a reabertura com receio, pois não vejo uma diminuição significativa dos casos. Mesmo usando máscara, mesmo tomando todos os cuidados, em alguns lugares, só irei em caso de extrema necessidade”, explica Flávia. Ela está trabalhando em casa e já está definido que o formato home office será mantido até dezembro, então tem saído apenas para comprar alimentos e medicamentos e ir ao médico, quando necessário.

Risco elevado

Na avaliação da infectologista Clarissa Ramos, as atividades que oferecem maior risco de contágio nessa retomada econômica são as relacionadas com a alimentação, pois as pessoas têm de tirar a máscara para se alimentar. Ela lembra que ao tirar as máscaras, os usuários irão colocar sobre alguma superfície que pode acabar sendo contaminada.

Clarissa destaca a manutenção do distanciamento de pelo menos 1,5 metro como medida central de prevenção, além do uso constante da máscara, pois o contágio ocorre principalmente por gotículas de saliva e secreções respiratórias. Dessa forma, em ambientes abertos ou fechados, é essencial evitar aglomerações. Embora haja o risco de contaminação por aerossóis, a médica esclarece que eles são produzidos em ambientes hospitalares.

A especialista entende a medição de temperatura antes do acesso a certos espaços como uma demonstração de cuidado, mas afirma que tecnicamente não tem sustentação, pois há pacientes que têm febre em fases mais avançadas da doença ou sequer apresentam febre em algum momento.

“A pessoa precisa estar ciente de que a cada vez que ela sair de casa, ela estará se expondo e correndo risco de se contaminar”, alerta Clarissa, acrescentando que a máxima ‘se puder, fique em casa’ continua sendo a principal recomendação. Ela reforça que as pessoas que apresentarem qualquer sintoma relacionado à Covid-19, como resfriado, dor de garganta, tosse e nariz entupido, mesmo que de forma habitual, não devem sair de casa de forma alguma.

Antes banais, alguns hábitos viraram sonhos de consumo 

O primeiro desejo da farmacêutica Marijane Reis, 45 anos, para a retomada da “vida normal” é simples, mas foi pensado em cada detalhe. Ela e a melhor amiga vão dar vários mergulhos na praia do Meio, na Cidade Baixa, intercalando com cerveja gelada, peixe frito, acarajé e talvez um queijo coalho, sempre com os pés descalços sobre a areia. 

“Sinto falta daquela coisa de você ir na água, voltar, sentar na cadeira e enquanto a água vai evaporando, vai fazendo aquela película de sal na pele. O vento vai batendo e você sente aquele sal grudado, aí você só tem duas opções: dar outro mergulho ou ir no chuveiro”, conta Marijane. Ela destaca que sua escolha é sempre um novo mergulho no mar.

A farmacêutica afirma que tem respeitado todas as restrições definidas nos decretos municipais e defende que seu direito de ir e vir não pode se sobrepor à lei sanitária. “Não tem como controlar o espaço que as pessoas vão ocupar na areia”, reforça. 

A realização do desejo da professora de dança Bel Souza, 42, não esbarra em decretos, nem restrições legais, mas na sua consciência da gravidade da crise sanitária. Mineira radicada em Salvador, ela sonha com o momento de embarcar rumo a Belo Horizonte para a casa dos pais, ainda mais quando lembra da angústia sentida quando eles tiveram dengue em meio à pandemia.

“Estou de férias, os voos estão baratos, mas considero que viajar agora é me expor e expô-los a um risco muito grande”, pondera Bel. Ela considera a possibilidade de matar a saudade desses abraços antes que uma vacina seja disponibilizada, mas apenas se houver uma queda acentuada e muito clara nos riscos envolvidos, com uma circulação bastante reduzida do vírus. 

Perfis diversos

Professor de Psicologia da Saúde e de Psicologia Social na Unifacs, Renan Rocha considera que o comportamento na reabertura será influenciado principalmente pela postura de cada pessoa antes dela. “Você tem pessoas que negligenciam a pandemia, não acreditam na gravidade, pessoas de perspectiva negacionista. Para essas pessoas, a reabertura não tem grande impacto porque, em boa medida, elas não têm levado a ideia do isolamento social a sério”, comenta. 

Rocha ressalta essa postura é uma grande fonte de preocupação, pois essas pessoas apontam para o risco de um aumento substancial de novos casos em poucos dias, ao saírem para aproveitar todos os espaços recentemente reabertos. 

“A outra tendência é a das pessoas que têm assumido uma perspectiva mais reticente, são aquelas que preferem aguardar a divulgação de pesquisas sérias, preferem acompanhar as notícias de vacinas que têm resultados mais promissores”, complementa o psicólogo. Nesse perfil, o esperado é que a reabertura não represente uma possibilidade ampla de circulação. 

“Tem de haver um crivo analítico, de para onde eu vou, como eu vou, o que faço ou deixo de fazer. Mas a experiência que temos visto em cidades que começaram a abertura gradual antes de Salvador mostra que as pessoas têm uma dificuldade enorme de obedecer as regras”, conclui Rocha. 




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Dum Leão

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