Karl Marx: os finais trágicos das filhas do pai do socialismo científico | Mundo

Karl Marx: os finais trágicos das filhas do pai do socialismo científico | Mundo

“Querido, muito em breve tudo terminará. Minha última palavra para você é a mesma que eu disse durante todos esses anos longos e tristes, amor”, dizia um bilhete que ela havia deixado.

Após a morte de Karl Marx, sua filha caçula se apaixonara por um cientista e revolucionário chamado Edward Aveling.

Eles estavam em um relacionamento por mais de 10 anos, mas no verão antes de sua morte, Aveling a abandonou por uma jovem atriz, com quem ele se casou.


Essa traição foi um golpe duro.

“Em 31 de março de 1898, (Aveling) voltou à casa de Eleanor em Sydenham, provavelmente para tentar extorquir dinheiro dela”, disse Faith Evans, tradutora de The Daughters of Karl Marx: Family Correspondence 1866-98 (“As Filhas de Karl Marx: Correspondência Familiar 1866-1898”), em um artigo no jornal britanico The Independent.

Acredita-se que, quando Aveling deixou o local, Eleanor tenha decidido acabar com sua vida.

Embora seja impossível determinar com precisão o que aconteceu naquela quinta-feira naquela casa de Londres, ocorreu que Eleanor havia pedido que sua empregada fosse à farmácia com um papel dentro de um envelope.

“Por favor, entregar ao portador clorofórmio e uma pequena quantidade de ácido prússico para cachorro”, dizia o pedido, conforme relatado por Rachel Holmes em seu livro Eleanor Marx: A Life (Eleanor Marx: Uma vida).

A receita tinha as iniciais “EA” e um cartão de Aveling.

A empregada voltou com um pacote e o entregou a Eleanor, que tinha 43 anos.

Laura traduziu grande parte do trabalho do pai para o francês. — Foto: Getty Images

Em 25 de novembro de 1911, a segunda filha de Karl Marx, Laura, foi passear em Paris com o marido Paul Lafargue.

“Eles vão ao cinema, compram um doce em uma doceria, caminham e quando voltam para casa cometem suicídio”, disse à BBC News Mundo Juan Manuel Aragüés, professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Zaragoza.

“Eles haviam planejado milimetricamente a decisão de cometer suicídio”.

Inclusive, como narra o jornalista da BBC Mundo Lioman Lima, “antes de entrar no quarto, Paul e Laura deixaram comida e água por vários dias para o cachorro deles, Nino”.

Eles eram casados ​​havia mais de 40 anos e acredita-se que a decisão de terminar suas vidas tenha sido tomada muito tempo antes, aparentemente por medo de uma velhice limitante.

Suas vidas, especialmente a de Laura, haviam sido marcadas fortemente pela morte de seus três filhos, que morreram muito novos.

“É possível entender de uma perspectiva abstrata as estatísticas de mortalidade infantil no século 19, mas quando você se concentra nas famílias ou nos casais, individualmente, é quando você realmente percebe a escala do problema. Quão devastador pode ser perder crianças tão pequenas”, diz à BBC News Mundo David Leopold, professor associado de Teoria Política da Universidade de Oxford.

Laura tinha 66 anos e seu marido, 69, quando tomaram ácido cianeto.

“Estando saudável no corpo e no espírito, tiro minha vida antes da velhice implacável, que me privou dos prazeres e alegrias um após o outro, e que me despojou da minha força física e intelectual, pode paralisar minha energia e quebrar minha vontade, tornando-me um fardo para mim e para os outros”, dizia um dos trechos da nota deixada por Lafargue.

A morte do casal, diz Aragüés, gerou uma enorme convulsão no movimento trabalhista, porque eram duas de suas referências.

O funeral deles em Paris tornou-se uma manifestação política com a presença de figuras como Vladimir Lenin.

Jenny faleceu na França em 1883; dois meses depois, seu pai morreria em Londres. Esta imagem é de 1866. — Foto: Getty Images

Quando criança, a saúde de Jenny ou Jennychen, como a chamavam, era um pouco frágil.

Ela nasceu em 1844 e se casou com o ativista francês Charles Longuet em 1872.

Como seus pais, o casal enfrentou problemas financeiros, mas acabou se estabilizando.

A vida de Jenny foi marcada por doenças e pela morte de dois de seus seis filhos quando eles eram pequenos.

Segundo Saul Padover, autor do livro Karl Marx: An Intimate Biography (Karl Marx: Uma Biografia Íntima), em setembro de 1882 Jenny deu à luz sua única filha.

Quatro meses depois, aos 38 anos, morreria de câncer na bexiga na França, onde se estabelecera com sua família.

Karl Marx estava muito doente em Londres e não pôde viajar para o funeral. Dois meses depois, o grande filósofo do comunismo também faleceria.

Seu estado de saúde era delicado e piorou com a morte, em dezembro de 1881, de sua grande referência: sua esposa. Um ano depois, ele perderia a filha.

O efeito foi devastador: “As pessoas que o conheciam disseram que foi quando ele perdeu o desejo de viver”, reflete Leopold.

Alguns autores, como Gareth Stedman Jones, professor de História das Ideias na Universidade Queen Mary, acreditam que Jenny tenha sido “a filha favorita de Marx”.

Jenny von Westphalen foi casada com Marx por 38 anos e foi a chave para sua obra. — Foto: Getty Images

Marx e Jenny tiveram sete filhos, mas apenas Jenny, Laura e Eleanor chegaram à idade adulta.

“Se tivesse que começar de novo, (Marx) declarou, ele teria escolhido a mesma vida de revolucionário, mas não teria se casado: sua esposa sofria demais e estava angustiada por suas filhas serem expostas ao mesmo destino”, escreveu Victor G. Kiernan, que foi professor emérito de história da Universidade de Edimburgo, em um artigo sobre as irmãs publicado em 1982 na London Review of Books.

“Havia problemas de saúde na família”, observou o historiador britânico. Duas das filhas sofriam de insônia, “entre outras doenças”.

Houve um período em que os Marx viveram em pobreza angustiante.

O professor Aragüés lembra que em Londres, quando um dos filhos morreu, a família não tinha dinheiro para comprar o caixão.

“Jenny, desesperada, pediu dinheiro a uma vizinha francesa para enterrar seu filho”, diz a professora.

Marx sabia, explica o acadêmico espanhol, que, com sua decisão de se dedicar à filosofia e ao serviço de um movimento político, arrastara Jenny para uma situação muito difícil.

“As mudanças de endereço foram constantes. Jenny nasceu em Paris em momento muito difícil para a família, porque pouco tempo depois foram expulsos”.

“Laura nasceu em Bruxelas, onde foram perseguidos pela polícia. Marx precisou penhorar o casaco para ter algum dinheiro”, lembra o especialista.

A esposa de Marx fazia parte de uma família proeminente da aristocracia alemã (então Prússia). Nesta imagem, é vista com sua filha mais velha. — Foto: UNIVERSAL IMAGES GROUP VIA GETTY IMAGES

Mas, depois desses anos árduos, as circunstâncias financeiras da família melhoraram graças, em grande parte, ao amigo e parceiro político de Marx, o filósofo Friedrich Engels, que os ajudou financeiramente.

“Temos poucos relatos de como era a vida doméstica, mas a impressão que eles deixam é que Marx foi um pai dedicado e muito próximo de suas filhas”, diz Leopold, autor do livro The Young Karl Marx (O jovem Karl Marx).

“Há relatos de pessoas que visitaram a casa e se lembraram de suas filhas brincando de cavalinho com ele”, diz. “Há um contraste entre a infância e a vida feliz da família e a dimensão trágica da vida adulta.”

Segundo o especialista, a vida dos marxistas era mais convencional do que se poderia pensar: “Marx não era um boêmio”.

Apesar de suas visões políticas, suas filhas tinham uma educação burguesa: havia aulas de piano, canto, francês, italiano, desenho.

Marx e Jenny queriam que suas filhas fossem financeiramente independentes e educadas.

A devoção, diz Leopold, era mútua: de pais para filhas e delas para seus pais, e isso se tornaria evidente ao longo dos anos.

O empreendimento coletivo de Marx

Essa devoção levou ao estabelecimento de um tipo de “sociedade” em que todos estavam envolvidos no processo de produção teórica, diz o professor Aragüés.

A atmosfera familiar ajudou Marx a se dedicar ao seu pensamento filosófico e a materializar seu trabalho. — Foto: Getty Images

“O nome que aparece no trabalho é o de Karl Marx, mas não há dúvida sobre o importante papel desempenhado pelas quatro mulheres ao seu redor nesse processo”, diz ele.

“Sua esposa parecia ser a única capaz de entender a letra diabólica de Marx”.

Jenny pacientemente limpou muitos de seus manuscritos. Mas ela também era escritora e pensadora política.

Suas filhas realizaram o trabalho de coletar informações e traduzir suas obras, que ele escreveu principalmente em alemão.

“Era como uma empresa coletiva. Eles sabiam que havia um trabalho teórico e político a ser feito e o realizavam”, diz o professor. “Mas não se trata um papel secundário de apoiar o pai, nas três filhas encontramos uma dimensão própria”.

A filha mais velha, Jenny, estava preocupada com o que estava acontecendo na Irlanda, não apenas por causa da crise econômica que afetava milhares de famílias da classe trabalhadora, mas por causa da crescente tensão nacionalista contra o domínio britânico.

Charles Longuet foi um líder socialista francês que se casou com a filha mais velha de Marx, Jenny — Foto: Getty Images

Ela escreveu vários artigos de jornal para denunciar os maus-tratos de prisioneiros políticos irlandeses pelas forças britânicas. Também publicou textos na imprensa socialista e apoiou refugiados que foram perseguidos após a Comuna de Paris, em busca de proteção na Inglaterra.

Londres e, como Aragüés diz, a casa de Marx, se tornaram um centro de peregrinação para revolucionários de todo o mundo.

A Comuna de Paris foi um movimento revolucionário que governou a cidade por dois meses em 1871 e o marido de Jenny era uma das figuras principais.

O compromisso revolucionário

Laura não foi fundamental apenas para traduzir o trabalho do pai para o francês.

O marido dela, Lafargue, nascido em Cuba, também era um líder revolucionário no levante francês.

Segundo Aragüés, Laura tinha um vínculo muito próximo com a Comuna de Paris.

O casal morava em Bordeaux, quando, em abril de 1871, o marido decidiu ir para Paris.

Em maio, a Comuna irrompeu e Lafargue “permaneceu para participar do movimento revolucionário”.

Laura enviou uma carta às irmãs, na qual dizia:

“Quanto a Paul, não sei o que pensar. Claramente, quando ele partiu, não pretendia ficar longe por tanto tempo, mas talvez não possa voltar, mesmo que quisesse, ou talvez a visão das barricadas o tenha tentado a ficar lá para lutar. Isso não deveria me surpreender e eu não me importaria, porque se eu estivesse lá com ele, também poderia lutar. ”

Depois de ler o trecho, Aragüés acrescenta: “Seu compromisso político era impressionante e ela acabara de ter um filho”.

Quando a comuna foi derrotada, Lafargue fugiu e levou sua família aos Pirineus.

“Depois de receber a informação de que seriam presos, foram para a Espanha. Mas o detiveram por alguns meses”, diz o pesquisador.

Quando ele foi libertado, foram alguns meses a Madri, onde desempenharam um papel fundamental na criação do Partido Socialista dos Trabalhadores da Espanha.

“O filho morreu e está enterrado em Madri”, diz o professor.

Jones, autor de Karl Marx: Greatness and Illusion (Karl Marx: Grandeza e Ilusão), diz à BBC News Mundo que as ideias políticas de Laura eram mais próximas das de Marx.

O próprio Engels ficou impressionado.

Engels manteve um relacionamento muito próximo com as filhas de Marx, mesmo após a morte do pai. — Foto: Getty Images

“Há correspondência, depois da morte de Marx, em que ela, seu marido e Engels escreveram um para o outro, e fica muito claro nessas cartas que ela não é mera espectadora do ativismo político; ela é uma participante ativa do movimento”, diz Leopold.

De fato, para Engels, Lafargue “não era digno de confiança”; em vez disso, “ele viu que o juízo político de Laura era muito superior ao do marido”.

“Laura escreve sobre eventos políticos contemporâneos e seu envolvimento com o movimento socialista é muito sério e significativo”, explica o professor da Universidade de Oxford.

A filha mais nova de Marx, Eleanor, sofrera anos de mentiras e falsas promessas de Aveling, que falou sobre casamento e filhos.

“Houve muita especulação: foi suicídio ou assassinato? Seja qual for o caso, Edward Aveling desempenhou o papel de seu agressor”, refletiram Harrison Fluss e Sam Miller em The Legacy of Eleanor Marx (“O Legado de Eleanor Marx” “), artigo publicado na revista Jacobin.

“Eleanor Marx não deve ser definida por sua morte, nem deve ser reduzida ao abuso que sofreu. Ela deve ser lembrada e celebrada como a mulher radical que era: uma pioneira do feminismo marxista”, observaram os autores.

Existe um consenso sobre isso: Eleanor, ou Tussy, como era chamada desde criança, tornou-se uma líder social que trabalhou para estabelecer os primeiros sindicatos de mulheres.

“Ela entendeu o que estava acontecendo nos sindicatos e se perguntou: como as mulheres estão participando?”, disse Holmes ao programa Free Thinking, da BBC.

Ilustração de Gennaro Amato, na qual Eleanor é vista em uma mobilização de trabalhadores em maio de 1890. — Foto: Getty Images

Ela se concentrou em entender como a estrutura econômica era construída sobre uma divisão de papéis em que os baixos salários eram para as mulheres, explicou a autora.

Ela defendeu o cuidado dos filhos das mães trabalhadoras e a educação obrigatória e falou não de reformas, mas de mudanças estruturais.

Além de promover os direitos das mulheres no local de trabalho, também colocou questões de saúde que as afetavam na agenda pública.

Segundo Holmes, ela também lutou pelo reconhecimento internacional da unidade entre os trabalhadores.

Um dos slogans que ela defendia era a implementação de jornada de 8 horas por dia para trabalhadores no Reino Unido e na Europa.

Eleanor foi às ruas, conversou com os trabalhadores para entender suas preocupações e participou como oradora das mobilizações.

E ela também era uma colaboradora muito próxima de seu pai. Embora ela, como as irmãs, adorasse Marx, passou a sentir que ficar com ele e se dedicar a ajudá-lo em seu trabalho havia se tornado uma espécie de fardo em sua juventude, reflete Jones.

Tanto Marx quanto a esposa tinham personalidade forte, e talvez um exemplo disso seja a atitude que assumiram em relação aos casais que suas filhas escolheram.

“Marx não queria que suas filhas fossem pobres, queria que tivessem casamentos felizes”, diz Leopold.

Jones diz que nenhum dos pais aprovou Longuet ou Lafargue como parceiros de Jenny e Laura, respectivamente.

“Lafargue estava mais próximo em suas ideias políticas de Marx, embora o próprio Marx tenha reclamado e dito que, se isso era ser marxista, ele não era marxista”, diz o autor.

Aragüés lembra que Marx “censurou Lafargue por sua maneira de falar e por seu certo ar burguês”.

Politicamente, Longuet tornou-se mais moderado e voltado para a social-democracia. Na vida familiar, acredita-se que ele não era um companheiro exemplar.

“O marido de Jenny era um marido convencional na época, com as conotações negativas que isso implica”, diz Leopold.

Segundo Emma Griffin, historiadora da Universidade de East Anglia, Jenny e Laura casaram-se com “homens muito parecidos, que tinham a ambição de serem escritores, criadores, para deixar uma marca no mundo”.

No entanto, na maioria das vezes, eles não eram uma fonte confiável para apoiar as famílias, disse no programa da BBC.

Marx e sua esposa tiveram ainda mais dificuldade em aceitar Prosper-Olivier Lissagaray, um revolucionário francês por quem a filha mais nova se apaixonara quando adolescente.

“A hostilidade em relação a Lissagaray não é clara, mas sabe-se que ele era 20 anos mais velho que Eleanor”, diz Jones.

No entanto, acredita-se que eles acabaram cedendo e foi Eleanor quem decidiu não continuar o relacionamento.

Jenny, Laura e Eleanor foram fundamentais na divulgação das ideias de seu pai.

“As filhas de Marx têm um perfil próprio, evidentemente ofuscados pela enorme figura do pai, mas o papel que elas desempenham tanto na esfera prática quanto na dimensão criativa não pode ser ignorado”, diz Aragüés.

“Além dos finais trágicos, o que deve ser sublinhado são as vidas de três mulheres tremendamente interessantes, com ideias muito claras, com um compromisso social e político muito poderoso. Além das dificuldades com as quais podem ter vivido, elas viveram um momento histórico muito importante.”

“São vidas difíceis, encurtadas pela doença, decepção, perda de filhos, mas, ao mesmo tempo, à luz de seu enorme valor teórico e prático, podem ser colocadas sem nenhuma dúvida na história do século 19 como referência no pensamento protagonizado por mulheres.”

Acompanhar um dos filósofos e teóricos políticos mais relevantes da história, diz o professor espanhol, e ser uma parte muito importante de seu trabalho é algo que “não foi suficientemente destacado”.


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Dum Leão

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