O rebanho da imunidade | Blog do Helio Gurovitz

O rebanho da imunidade | Blog do Helio Gurovitz

O pensamento mágico costuma exercer força irresistível na mente humana. Diante de fatos incômodos ou que não conseguimos entender direito, acreditamos naquilo que queremos acreditar. Enxergamo-los através das lentes espessas de nossos preconceitos, nossas crenças e conhecimentos prévios. Pesquisadores costumam chamar o fenômeno de “viés de confirmação”. Ninguém está imune. Nem aqueles cujo ofício os obriga a lidar e a explicar a realidade, sejam cientistas, sejam jornalistas.

A pandemia de Covid-19 lançou diante de todos incógnitas imperscrutáveis. Em poucos meses, conceitos científicos complexos passaram a fazer parte dos debates virtuais via teleconferência que substituíram as conversas de botequim. Todos se transformaram em epidemiologistas amadores, passaram a discutir curvas de transmissão, modelos matemáticos e a taxa de contágio como especialistas, devidamente graduados pelas universidades do Twitter e do WhatsApp.

O novo coronavírus continuou – e continua – a se espalhar e a matar, sem dar a mínima para o que disseram os defensores da “estratégia sueca” ou do “isolamento vertical”. Entender o comportamento e a transmissão do Sars-CoV2 continua uma tarefa desafiadora para os melhores cérebros que se dedicam à questão. As dúvidas ainda são maiores que as certezas, as perguntas superam as respostas – por mais que seja insuportável à mente humana conviver com isso sem manifestar nosso incontornável “viés de confirmação”.

O preâmbulo se faz necessário antes de discutir o tema que tomou conta do debate brasileiro em proporção descomunal nos últimos dias: o patamar de contágio necessário para garantir que haja, na população, uma quantidade de imunes suficiente para dificultar a transmissão do vírus, a ponto de a epidemia definhar naturalmente. Noutras palavras, que patamar de imunidade coletiva traz segurança?


Uma característica da epidemiologia a aproxima da economia, da física e de outras áreas de estudo em que o comportamento do todo depende de características de cada uma das partes. Como as moléculas que determinam a temperatura de um gás ou os agentes financeiros que regulam os preços no mercado, os indivíduos infectados interferem na progressão do contágio. O todo, maior que as partes individuais, deve ser analisado em seu comportamento próprio – como um cardume de peixes, um enxame de abelhas ou uma revoada de pássaros.

A espécie humana preferiu, porém, se identificar com uma manada de ruminantes e consagrou, para denominar o nível seguro de imunes na população, a prosaica expressão “imunidade de rebanho”. O “patamar de imunidade de rebanho” representa o percentual da população que precisa estar imune ao vírus para que ele não consiga mais se espalhar. Originalmente, a expressão definia quantas reses precisariam ser vacinadas para evitar que uma doença devastasse a boiada.

Numa campanha de imunização, é dado como certo que uma rês vacinada se torna imune (ao menos com uma probabilidade conhecida), não contrai mais a doença e, portanto, não pode mais transmiti-la. Isso permite traçar com exatidão o patamar de vacinação necessário para proteger o rebanho. Na Covid-19, o problema é anterior ao tamanho da manada. Começa no uso da palavra imunidade. Em geral, ela não significa aquilo que achamos que significa (ou não exatamente).

O sistema imunológico humano tem uma complexidade tal que é impossível garantir que a infecção pelo novo coronavírus proteja contra novas infecções, como ocorre com o sarampo. Nem se sabe por quanto tempo dura a proteção (os coronavírus transmissores de resfriado são célebres pela imunidade transitória). Nem mesmo as condições de transmissão são sabidas com certeza (leia mais aqui).

Todos os estudos que simulam a progressão da doença se baseiam em hipóteses sobre o período em que os infectados são contagiosos que, embora prováveis, não estão garantidas. Há casos em que a Covid-19 manifesta sintomas por meses (conhecidos como “long-haulers”). Noutros, infectados cujos testes deram resultados negativos voltam a testar positivo semanas depois.

Testes sorológicos (que medem o nível de anticorpos) são notoriamente pouco confiáveis para avaliar a proteção. A presença eventual de anticorpos contra o Sars-CoV2 não garante imunidade duradoura. A ausência deles também não garante falta de imunidade, já que o organismo humano dispõe de outras linhas de defesa mais complexas e poderosas contra invasores (em particular, células de defesa conhecidas como “linfócitos T”). Se você está achando tudo isso complicado demais, não se assuste. É complicado mesmo. E mal começou.

Mais complicados ainda são os modelos matemáticos usados para tentar estimar o patamar de imunidade coletiva. A versão mais simples não é difícil de entender. Todo vírus tem um número básico de reprodução, conhecido como R0 (ou R-zero), que representa a quantidade de pessoas que cada infectado contamina na média. No caso da gripe ou do ebola, R0 gira em torno de 1,5 (cada dois doentes transmitem o vírus a outros três). No caso do Sars-CoV2, R0 está entre 2 e 3 (cada doente transmite o novo coronavírus a entre dois e três outros).

A cada ciclo de contágio, o número de infectados é multiplicado por essa taxa de reprodução. É por isso que o objetivo de qualquer estratégia de combate ao vírus é reduzi-la a um valor abaixo de 1. Quando isso acontece, o total de infectados a cada ciclo de transmissão diminui, e a epidemia decai naturalmente, como por encanto.

Suponha, agora, que R0 seja igual a 3, valor aproximado para a Covid-19. Imagine então que, dos três novos infectados por alguém com o vírus, dois já estivessem imunes. O doente só poderia transmitir a doença a apenas um outro. Se mais de dois em cada três estivessem imunes na população, portanto, o número de reprodução cairia abaixo de 1, e a epidemia se extinguiria. Vem daí o cálculo que estima o patamar de imunidade de rebanho em 2/3, ou quase 70%.

Como se vê, é um cálculo aproximado, que depende intrisecamente do número básico de reprodução. Só que ese número é uma média e, como toda média, traduz uma visão apenas parcial da realidade. Na prática, as populações são heterogêneas. Nem todos transmitem a doença a exatamente duas ou três pessoas. Há superdifusores, que transmitem a dezenas, outros que, isolados, não transmitem a ninguém. Especialmente no caso da Covid-19, estima-se que 10% dos casos respondam por 80% do contágio (leia mais aqui).

Qual o efeito dessa heterogeneidade no patamar de imunidade coletiva necessário para proteger a população? Eis o tema que tem despertado controvérsia nos últimos dias. Os leitores atentos deste blog estão informados sobre os termos desse debate desde pelo menos o dia 16 de maio, quando publiquei links para os principais estudos que tentam fazer essas estimativas (leia aqui, item 6).

Os três usam métodos distintos para estimar o patamar de imunidade coletiva, levando em conta diferentes hipóteses sobre as populações. Todas são simplificações, portanto nenhuma deve ser tomada como versão definitiva da realidade. O mais sofisticado, de cientistas canadenses e americanos, é uma elaboração do raciocínio epidemiológico tradicional explicado acima, levando em conta as variações no contágio a partir de cada infectado.

Propõe um modelo baseado em teorias clássicas sobre as redes de interações e tenta medir as infecções secundárias por meio de conceitos estatísticos conhecidos e consolidados. Considerando R0 entre 1,5 e 4 e aplicando diferentes níveis para uma variável conhecida como “coeficiente de dispersão” (leia mais neste outro estudo), conclui que a tal “imunidade de rebanho” seria atingida quando a infecção atingisse entre 25% e 50% da população.

O segundo estudo, de cientistas portugueses e brasileiros, supõe outro modelo, com base numa outra variável que tenta abarcar num número os níveis heterogêneos de contágio, chamada “coeficiente de variação”. Pela lógica proposta, aqueles com maior chance de contaminar também são os que mais rapidamente pegam a doença. Por isso mesmo, seria razoável atingir o patamar de imunidade coletiva com uma quantidade bem menor de infectados, até abaixo de 20%.

O importante é entender que esse nível é condicional. Depende, essencialmente, de a população manter hábitos que reduzem a probabilidade de contaminação. Em vez de justificar o relaxamento em medidas como uso de máscaras, higiene e distanciamento social, portanto, o estudo na verdade ressalta a importância delas.

O terceiro estudo, de cientistas suecos, embora publicado pela revista Science, é o menos sofisticado na tentativa de simular o efeito da heterogeneidade. Apenas supõe diferentes patamares de contágio dependendo da faixa etária e do nível de atividade. Conclui que, respeitadas certas hipóteses, o patamar de imunidade coletiva variaria entre 35% e 67%. A própria Science recomendou em editorial cautela na leitura desses resultados.

Qualquer que seja o patamar verificado na realidade, a Covid-19 representaria uma mortandade sem paralelo. Na melhor hipótese – digamos os 20%, com uma letalidade em torno de 0,7% –, haveria quase 300 mil brasileiros mortos, ainda que mantidas todas as medidas de higiene, isolamento e vigilância. Tudo isso, claro, é incerto, dado que uma vacina eficaz salvaria centenas de milhares.

O mais difícil é que todas as incertezas associadas à interpretação dos resultados científicos sejam levadas em conta no ambiente político carregado que cerca a pandemia. O viés de confirmação distorce as conclusões na direção mais atraente a quem fizer a leitura. Os fatos estão aí pelo menos desde maio, as incógnitas também. Decisões precisam ser tomadas com um nível imperfeito de conhecimento. É preciso, portanto, cuidado para evitar seguir o rebanho – ou ser atropelado por ele.


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