“Não é hora de se falar em sucessão presidencial”, afirma João Doria

“Não é hora de se falar em sucessão presidencial”, afirma João Doria

O governador de São Paulo, João Doria, do PSDB, é enfático ao afirmar que o “Brasil não aceita um governo autoritário, venha de quem vier”, ao se referir às ameaças do presidente Jair Bolsonaro, e do seu entorno, à democracia. “Temos que ficar muito atentos para a defesa da Constituição e da democracia brasileira”. À frente do estado mais pujante do país, volta e meia ele é lembrado como nome forte para a sucessão de 2022. Nessa entrevista exclusiva ao Grupo A TARDE, ele diz que “não é hora de se falar em sucessão presidencial”. Confira:

Governador como conciliar a crise de saúde com a crise econômica, que tem levado inúmeras empresas a falirem e a aumentar o número de desempregados em todo o país?

Dando prioridade à vida, Lyra. Eu não tenho nenhuma dúvida disso. Não há economia sem vida. Uma pessoa sem vida não consome. É preciso preservar vidas. Eu sei que é duro, eu sei que é difícil, sobretudo para micro e pequenos empresários e mesmo para aqueles que não são empresários, aqueles que dependem de uma renda mínima, ainda que trabalhando como camelôs ou vendendo qualquer tipo de coisa em alguma praça pública ou rua pública em todo o Brasil. Nós já temos mais de 15 milhões de pessoas desempregadas, é a maior crise de desemprego da história do país, assim como a maior crise econômica da história do país. Mas não se pode colocar a economia à frente da vida, à frente da saúde. E é isso que nós fizemos em São Paulo, aqui a vida foi priorizada, e nós acertamos, eu tenho absoluta convicção disso. Com o Plano São Paulo, nós já estamos há duas semanas de uma quarentena heterogênea, onde permitimos vários setores retomarem gradualmente, de forma segura, as suas atividades econômicas. E, mesmo desde a primeira quarentena, e isso estamos acompanhando agora nessa live do Jornal A TARDE, nós aqui também, desde o início, mantivemos 70% da economia de São Paulo aberta, nós não fechamos nenhuma fábrica em São Paulo, não fechamos o setor do varejo para, não apenas o comércio essencial, de alimentos e produtos farmacêuticos, mas também mantivemos lojas de produtos para casas abertas. As casas que forneciam material de construção, material de acabamento, para que as pessoas pudessem ter as suas casas organizadas, foram mantidas abertas. Vários outros setores da economia foram mantidos funcionando com protocolos sanitários e todos seguiram, majoritariamente, seguiram rigorosamente a nossa orientação. A construção civil em São Paulo não parou em nenhum dia nas cinco quarentenas, lembrando que nós estamos na sexta quarentena agora, mas com critérios sanitários, obrigatoriedade do uso de máscara, distanciamento social, horários de revezamento para evitar concentração do transporte público e também nas horas de refeições, e cuidados também de higienização de mãos, rostos, e também que levassem às suas casas a oportunidade de terem sabonetes, álcool em gel, tudo isso fornecido gratuitamente por empresas que assinaram esses protocolos conosco. Então, estamos gradualmente recuperando a economia, São Paulo é o motor da economia do Brasil, não estou aqui desprezando nenhuma outra parte do país, até o meu coração e minha alma baianos não me permitiriam fazer isso seja com a Bahia, seja com qualquer outro estado brasileiro, principalmente do meu Nordeste, mas São Paulo tem quase 40% de toda a economia brasileira. Ou seja, a recuperação da economia a partir de São Paulo ajuda a Bahia, ajuda o Pernambuco, ajuda o Ceará, como ajuda o Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, o Centro-Oeste, a região Norte do país. E nós temos, inclusive, um projeto que está em elaboração sob a conduta de Henrique Meirelles, que é o nosso secretário da Fazenda e, como você sabe, foi ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central do Brasil, que chama-se Retomada 21/22. É um programa robusto de recuperação da economia de São Paulo e que vai refletir em todo o Brasil, não vai refletir apenas para os brasileiros de São Paulo. Então, a economia tem a sua importância, sim, ela está sendo recuperada, só que de forma segura, gradual, protegendo vidas.

Era justamente isso que eu iria perguntar, até porque São Paulo teve um PIB de 3% no ano passado, o que representa uma força e uma pujança muito grandes. E o secretário Henrique Meirelles está à frente, com auxílio também do baiano Antônio Imbassahy, que é responsável pelo escritório do governo de São Paulo em Brasília. O que prevê esse plano de retomada?

Lyra, primeiro obrigado pela sua lembrança do Imbassahy. Antônio Imbassahy, que já foi prefeito de Salvador, governador do estado da Bahia, deputado estadual, deputado federal, ministro do estado, hoje é o nosso secretário especial em Brasília e tem ajudado muito nas políticas públicas federais e no âmbito também da relação com todos os setores do governo federal. E é um herói. E mostra bem a pluralidade do governo de São Paulo. Aqui eu não pedi a nenhum secretário que me apresentasse atestado de voto, de votou em quem, se votou em mim, se pertence ou não pertence ao PSDB, nós procuramos reunir aqui as melhores cabeças do país para ajudar os brasileiros de São Paulo. Seja da Bahia, seja de Goiás, seja do Rio Grande do Sul, do Amazonas, de Pernambuco. Nós temos aqui secretários, e é um grupo pequeno, são 20 secretários, já foram 35 no passado. Temos 20, boa parte deles não são daqui de São Paulo, nem sequer residiam aqui. E aceitaram o desafio e o convite para virem para São Paulo, hoje residem aqui e ajudam os brasileiros de São Paulo. A maior população baiana fora da Bahia está aqui em São Paulo com muito orgulho. E mesmo qualquer outro estado brasileiro, a segunda população maior está sempre concentradamente aqui. E eu tenho esperança. Primeiro, eu sou positivista e otimista. Nunca fui pessimista. O preço é igual entre ser pessimista e otimista e eu sempre optei corretamente por ser uma pessoa otimista. Para trabalho, olhando e trabalhando para ser produtivo e não para ficar reclamando e chorando. Isso eu nunca fiz na minha vida. Aliás, eu construí minha vida privada com esse fundamento, trabalho, dedicação, aquilo que meu pai, que nasceu em Salvador, capital da Bahia, onde você está, me ensinou desde muito cedo, e aos 14 anos eu comecei a trabalhar e desde então consegui construir uma vida ilibada, limpa e, felizmente, bem-sucedida no plano material. Tanto é que você sabe que eu trabalho de graça. Eu não recebo um único centavo como governador do estado de São Paulo. E abri mão de várias mordomias, como viver aqui no Palácio dos Bandeirantes, ao contrário dos meus antecessores, não estou condenando, mas eu moro na minha casa, onde eu moro há mais de 20 anos. Mas sou muito otimista e confiante no futuro. E não é um futuro remoto. É um futuro breve, a partir, evidentemente, do controle da pandemia e das vacinas, incluindo a CoronaVac que está sendo desenvolvida aqui pelo Instituto Butantan. 21/22 serão anos de recuperação. Serão anos difíceis, apesar do meu otimismo. Quero deixar claro aos que são micro empreendedores, pequenos e médios, os grandes também, não serão anos fáceis, 21/22, para o Brasil e nem para o mundo, mas serão anos de recuperação e de oportunidade. Toda crise, e essa é uma verdade, não é uma frase de livro, toda crise traz oportunidade. Para quem quer trabalhar, para quem não quer ficar apenas a reclamar, para quem quer buscar oportunidade, a crise sempre oferece. Vamos olhar aqui, para ser breve, o exemplo da virtualidade. O comércio virtual e os deliverys. O comércio virtual hoje é uma realidade que não era seis meses atrás, em janeiro deste ano, era mínimo o volume de comércio virtual aqui no Brasil. Hoje mais de 33% do comércio de qualquer setor de varejo é virtual, é feito via internet, não presencial. Ou seja, ele ganhou uma expansão brutal em um prazo muito curto, até por necessidade. Vamos aí para o mundo da economia criativa. Os pequenos empresários, micro e pequenos, que são donos de restaurantes, pizzarias, restaurantes de cozinha japonesa, portuguesa, italiana, espanhola ou brasileira, que passaram a usar o delivery, o take away, com uma forma que muitos sequer tinham utilizado anteriormente e hoje já incorporaram isso, mesmo com as aberturas nas cidades onde isso foi permitido, encontraram um negócio complementar ao seu, melhorando sua rentabilidade e a sua oportunidade. Por quê? Porque foram rápidos, objetivos, criativos, ao invés de ficarem chorando, reclamando e demitindo, buscaram a alternativa do delivery e do take away. Mantiveram empregos e sobreviveram.

O senhor acompanha a política nacional de perto. O presidente Bolsonaro participou de vários protestos contra o STF e contra o Congresso e o próprio deputado Eduardo Bolsonaro chegou a falar em ruptura institucional de forma muito clara. Vivemos algum tipo de ameaça à democracia?

Olha, partindo do gabinete do ódio de Brasília, sim. Isso é fato. Você acaba de reproduzir isso. Aliás, você, a mídia brasileira, a mídia internacional, e pergunte aos ministros do Supremo se eles sofreram ou não, se foram molestados ou não e ameaçados ou não. Ou mesmo ao presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, ou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ou outros poderes também ameaçados por bolsonaristas estimulados pelo gabinete do ódio em Brasília. Nós temos que ficar muito atentos para a defesa da Constituição e a defesa da democracia brasileira. A democracia está muito consolidada no país, os poderes, sobretudo o Legislativo e o Judiciário, e, no plano executivo, todos os governadores. Nós temos um fórum de governadores, do qual o governador Rui Costa faz parte, nós somos todos, integralmente, defensores da democracia. Não vi um governador sequer defendendo atos autoritários, fechamento do Congresso, fechamento do Supremo ou apoiando medidas intimidatórias para o poder Legislativo ou o poder Judiciário ou qualquer outro poder regulador. Então nós seremos peças de resistência democrática. O Brasil não aceita um governo autoritário, venha de quem vier. E não creio também que os militares que estão hoje na ativa e os que estão na Reserva tenham simpatia por qualquer perspectiva antidemocrática de um governo autoritário no Brasil. Eu sou filho de um deputado baiano cassado pelo golpe militar de 64 e que viveu 10 anos no exílio. Eu vivi 2 dos 10 anos no exílio ao lado do meu pai e de minha mãe. Então, eu sei o que é a dor de um governo autoritário, um governo que produziu vítimas que calou a imprensa, que calou intelectuais, que colocou a escanteio a cultura brasileira e que amordaçou o Brasil durante muitos anos. Eu, como brasileiro, não quero isso de volta aos meus filhos e nem a nenhum irmão brasileiro. Quero uma vida democrática, com todos os problemas e as mazelas que a democracia pode provocar e circunstancialmente provoca, mas com liberdade, liberdade de expressão, liberdade na cultura, liberdade a todas as manifestações e a todos os sentimentos dos brasileiros. Esse é um ponto de defesa meu e, seguramente, da maioria dos milhões brasileiros.

A prisão do Queiroz mudou completamente a forma com que o presidente Bolsonaro e o seu entorno passaram a se comportar publicamente. Essa mudança leva a um indício de que há um temor muito grande com relação a essa prisão. Qual a avaliação do senhor, governador?

A mesma que você tem. Do temor. Se não houvesse temor, não teria havido a reação que houve antes da prisão, durante o mandado de prisão e com a prisão e após a prisão. Corroboro do seu enunciado e espero que a justiça siga a sua investigação. Aliás, como cabe à justiça investigar sempre, nós não estamos aqui fazendo prejuízo de ninguém, como você não fez também, mas toda investigação tem que seguir até o seu final.

A alta capacidade gerencial que o senhor e seu governo têm, o fato de administrar o estado mais pujante do país, o colocam sempre na linha de frente da discussão sobre a sucessão de 2022. O senhor deseja entrar na disputa para o Planalto ou isso pode acontecer de uma forma natural, a partir do trabalho que o senhor tem desenvolvido à frente do estado de São Paulo?

Lyra, não é hora desse debate. Agora não temos que debater 22, temos que debater primeiro a pandemia. Temos que superar a pandemia para salvar vidas, proteger as pessoas e recuperar a economia. Isso é prioridade total. Qualquer ser político que esteja pensando em eleições em 2022 está cometendo um gravíssimo erro. Temos eleições municipais agora em novembro, é justo e razoável que prefeitos e prefeitas, assim como vereadores ou candidatos a essa função, pensem e trabalhem por uma eleição. Essa é a democracia, é isso que estabelece a Constituição Brasileira e o calendário eleitoral também. Eleições de 2022 em 2022. Até lá, é trabalhar para recuperar a saúde e a proteção de vida dos brasileiros e recuperar a economia para a retomada de empregos e da alegria de viver no nosso país. Não é hora de se falar em sucessão presidencial.

Governador, eu quero agradecer a presença do senhor, a entrevista e lhe pedir uma última mensagem para os baianos, para a Bahia, já que o senhor é filho de baiano e tem o sangue do Nordeste correndo nas suas veias…

E tenho mesmo, com muito orgulho. Eu até digo sempre que sou meio baiano, 50% baiano. O que me traz, sob certo aspecto, tristeza, porque 100% de baianidade me traria até um pouco mais de felicidade. Mas essa combinação de metade paulista e metade baiano me faz uma pessoa feliz, e é isso que eu desejo para as pessoas que estão na Bahia e que estão em São Paulo também: felicidade, alegria, o bom sentimento e vida. Agora é hora de nós preservarmos, exaltarmos a vida. A vida é a coisa mais importante na existência. Eu, diariamente, eu sou católico, como você sabe, eu faço minhas preces, minhas orações, conheço o candomblé, aprendi com meu pai a respeitar também as religiões de origem africana, como todas as religiões eu respeito, mas a oração, a crença, a fé me fazem sempre uma pessoa melhor, uma pessoa que confia na vida, na existência e na esperança. A minha mensagem ao povo baiano é a mensagem da esperança. Basta olhar também esse horizonte da Bahia, o pôr do sol, quando eu vejo a baía de Salvador, como eu estou vendo aí nessa fotografia atrás de você nesse momento, não só me traz saudade, como também me traz esperança. Paz, amor, harmonia e saúde aos brasileiros da Bahia e aos brasileiros de São Paulo também. E meu abraço cordial a você, Lyra, obrigado pela oportunidade, pelo tempo. Lembrando também do Jornal A TARDE, eu queria fazer uma lembrança aqui a um dos nomes que marcou muito a minha vida, foi muito amigo de meu pai, Jorge Calmon, foi diretor do Jornal A TARDE durante muitos anos e foi um defensor da democracia e da liberdade de imprensa. Foi um dos grandes nomes que escreveram parte da história desse grande jornal chamado A TARDE.




Compartilhe
Comente

Dum Leão

dumleao

Acesse e confira produtos incríveis…
Participe desse experiência.
3Cs – Confira! Compre! Compartilhe!